E agora, que fazer?

Recentemente testemunhei no mesmo dia três acidentes: um autocarro que perdeu os travões abalroando três carros e ferindo sete pessoas, uma criança que sofreu uma queimadura de segundo grau na creche que frequentava e uma pessoa que partiu um pé. O que têm em comum estes três acidentes? Incúria e desleixo! E o que me leva a trazê-los para este espaço? A minha convicção de que estes acidentes, como muitos outros, ocorreram porque os seus causadores teriam mais com que se preocupar do que tomar atenção à afinação dos travões (partindo do princípio que a manutenção da frota da Carris está a seguir as regras devidas), cuidar que a sopa que se põe à frente de uma criança de menos de dois anos está à temperatura certa ou ter atenção onde se põe o pé quando aquilo que preocupa a pessoa em questão é o relacionamento com a chefia.

Se neste último caso pode ser abusivo chamar a terreiro a teoria do acto falhado, o certo é que a pessoa em questão se viu obrigada a uma licença médica que a libertou de uma chefia tóxica e que o tempo que tem passado imobilizada a tem levado a reflectir numa mudança de emprego.

Até que ponto pode uma atmosfera de conflito latente numa organização influenciar os comportamentos dos seus empregados? Esta é uma pergunta legítima.

Existem vários estudos sobre a correlação entre a cultura de uma organização, o comportamento dos seus líderes e a atitude dos empregados e não será por acaso que qualquer relatório de contas se orgulha quando pode exibir a ausência de acidentes de trabalho ou taxas reduzidas de absentismo.

É do senso comum que aquilo que é mais importante para uma pessoa num dado momento será o foco da sua atenção. Assim, quando o que é mais importante são os problemas e as dificuldades pelas quais cada um está a passar, muitas vezes percepcionados como sem solução, está aberto o caminho para a desatenção ao que é o objecto do seu trabalho.

Nesta época que estamos a viver, em que muitas vidas foram viradas do avesso, toda a atenção que as empresas possam prestar aos factores que estão a influenciar o desempenho das pessoas, sejam eles endógenos ou exógenos à organização, é bem-vinda. Essa atenção implica a observação que hoje o trabalho à distância põe em causa, uma vez que essa observação deixa de ser directa. Mas também envolve a escuta das pessoas antes da tomada de decisões que as vão afectar e, no limite, adoptar soluções que venham delas próprias.

A protecção das pessoas tem sido a maior preocupação de muitas empresas, mas essa protecção não pode ser apenas física. Tomar o pulso das pessoas, agora que muitas delas regressam aos escritórios, permite compreender os seus comportamentos e atitudes prevenindo riscos. Essa compreensão não tem a ver com permissividade, antes pelo contrário funciona como diagnóstico que permitirá tomar medidas concretas para melhorar o bem-estar das pessoas e, se

essas medidas forem construídas por todos, o desempenho da empresa terá melhorias. É sem dúvida um investimento com retorno garantido. E é esta a altura de o fazer.

* Dalila Pinto de Almeida, Consultora em Pesquisa e Desenvolvimento de Talento www.dpaconsultoria.pt

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