E depois do Brexit?

A não haver novo adiamento, e a manter-se a incapacidade de Londres para apresentar uma alternativa aceitável ao acordo que rejeitou, estamos a um mês de uma saída abrupta do Reino Unido da União Europeia.

A não haver novo adiamento - que a União não vai aceitar sem fortes motivos - e a manter-se a incapacidade de Londres para apresentar uma alternativa aceitável ao acordo que rejeitou - que neste momento não está à vista -, estamos a um mês de uma saída abrupta do Reino Unido da União Europeia.

No campo das relações económicas, o Reino Unido deixará de integrar o “mercado único” da União, com a liberdade de circulação de bens, de serviços e de investimentos, sem fronteiras internas, tornando-se “país terceiro”, cujas relações comerciais com a União ficam subordinadas às regras da Organização Mundial do Comércio, passando os produtos britânicos a pagar direitos aduaneiros à entrada na União e os produtos da União a pagar os direitos da nova pauta aduaneira do Reino Unido, ainda desconhecida.

Consumando-se um hard Brexit, a Grã-Bretanha ficará colocada numa situação singular nas suas relações com a União Europeia, visto que quase todos os países circundantes desta, com exceção da Bielorrússia, têm acordos de livre comércio com Bruxelas, ou mesmo formas de integração económica mais profunda (como a Noruega, a Suíça, a Turquia).

Além disso, a Grã-Bretanha deixa também de beneficiar imediatamente dos numerosos acordos de comércio (ou de comércio e investimento) da União com terceiros países, incluindo com economias importantes como os referidos países europeus, bem como a Ucrânia, o Japão, o Canadá, Singapura, Mercosul, África do Sul, etc.

Mesmo que fosse possível replicar esses acordos num prazo curto, resta saber se esses países estão disponíveis para conceder à Grã-Bretanha as vantagens comerciais que deram à União, que é um mercado muito maior e, portanto, mais valioso.

Seria de prever que no dia seguinte à saída, com ou sem acordo de transição, começassem as negociações entre Londres e Bruxelas para um ambicioso acordo de comércio e investimento, tanto mais que mais de metade das exportações britânicas têm como destino a União.

Existem, porém, duas dificuldades nesse caminho. Primeiro, na sua ânsia de se libertar das “amarras” da União, Londres parece privilegiar acordos com outros países, nomeadamente os Estados Unidos, a Austrália, o Mercosul, etc. Em segundo lugar, como observou W. Munchau no Finantial Times, é evidente que a União não vai abrir o seu mercado a uma economia vizinha tão forte como a britânica, sem impor o respeito pelas normas reguladoras da UE, em matéria de direitos dos consumidores, segurança alimentar, privacidade de dados, mercados financeiros, padrões ambientais, etc., de modo a evitar uma “concorrência regulatória” lesiva da União.

É fácil antever que não vai ser fácil compatibilizar este “preço” com a promessa de reconquistar a “soberania regulatória” de Londres, que foi uma das bandeiras do Brexit.

Professor da Universidade de Coimbra e da Universidade Lusíada Norte

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de