É oficial: o preço das casas não desceu

Achava que, desde a Primavera o valor a que as casas são transacionadas tivesse vindo a descer. Mas estava enganado. Isso não aconteceu.

Mais que debitar os números do Instituto Nacional de Estatística de forma detalhada (que pode sempre consultar aqui), importa sublinhar os três factos que constam no relatório do 3º trimestre que considero mais relevantes:

- O valor das habitações subiu quase impercetivelmente face ao 2º trimestre de 2020 (0,5%), ou seja, a pandemia e a respetiva crise económica não estão, de forma geral, a atuar sobre o preço das casas;

- O número de transações desceu marginalmente face ao 3º trimestre de 2019 (1,51%), ou seja, no 3º trimestre de 2020 escrituraram-se praticamente tantas casas em Portugal como no mesmo período do ano anterior;

- Houve mais de 7.500 transações de habitações novas, algo que não acontecia desde o 1º trimestre de 2011 (ainda que, na altura, as 8486 transações tenham representado 33% do total das transações, o dobro do peso das casas novas no total de vendas no trimestre em causa).

A conclusão pode até parecer aparentemente simples mas não deixa (pelo menos para mim), de ser surpreendente. Dois dos fatores que mais impactam o imobiliário (ação político-legislativa e taxas de juro) estão a mitigar por completo aquele é que é outro dos fatores mais determinantes para definir o mercado imobiliário (o ciclo económico). Ou seja, as moratórias dos bancos e os mecanismos de lay-off (ações políticas) juntamente com as taxas de juro historicamente baixas estão a:

1) evitar que incumprimento bancário dispare sobre o crédito à habitação (e, igualmente importante, sobre os empréstimos às empresas que pagam salários a trabalhadores com créditos à habitação...);

2) impedir que o desemprego cresça ainda mais;

3) suportar a procura por compra de casa.

Portugal é, de longe (e segundo a DBRS), o país europeu em que as moratórias têm um maior peso sobre o volume total do crédito. E é também, segundo a Organização Mundial do Trabalho, aquele que registou a maior quebra salarial entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, por via do desemprego ou da redução de horas de trabalho (segundo a OCDE, as empresas apoiadas pelos mecanismos de lay-off compreendiam 32,9% dos trabalhadores do país).

Parece difícil imaginar que estes indicadores não impactem (ou venham a impactar) mil e uma coisas, incluindo a perceção de valor das casas. Mas o facto a sublinhar é este: até ao 3º trimestre e de uma forma geral (porque este indicador é uma abordagem homogeneizada a todo o país), o valor a que as casas são transacionadas em Portugal não desceu.

Dir-se-ia que o que aconteceu ao imobiliário, à economia, ao mundo e a todos nós foi verdadeiramente surpreendente. Mas que as medidas tomadas são também elas tão impressionantes (até numa perspetiva histórica) que o impacto sobre o valor a que algo tão importante como os locais onde vivemos se tem mantido praticamente inalterado.

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