Sílvia de Oliveira

É para Deus que Barroso trabalha

José Manuel Durão Barroso. Fotografia: EPA/PATRICK SEEGER
José Manuel Durão Barroso. Fotografia: EPA/PATRICK SEEGER

Não se esqueça que o chairman e CEO do Goldman Sachs acredita que os bancos têm um desígnio social e que se limitam a “fazer o trabalho de Deus”.

Numa velha e espantosa entrevista ao The Times of London, que merece, claro, ser relida, Lloyd C. Blankfein disse mais: “Nós [os bancos e os banqueiros] somos muito importantes […] Nós ajudamos as empresas a crescer ao ajudá-las a levantar capital. As empresas que crescem criam riqueza, permitem às pessoas ter emprego, que criam mais crescimento e riqueza. É um ciclo virtuoso”. […] Eu sou só um banqueiro que está a fazer o trabalho de Deus”.

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Lloyd Blankfein, chairman e CEO do Goldman Sachs

Assim, sem mais nem menos.

Nessa época, novembro de 2009, já em plena crise do subprime, mas ainda muito longe de se imaginar a colossal crise financeira e económica que para aí vinha, e que arrasou muitas empresas, muitos bancos e muitos países.

Blankfein disse “compreender, ainda assim, que as pessoas se zanguem com os atos dos banqueiros. Eu poderia cortar os meus pulsos, que as pessoas celebrariam”.

O norte-americano de 62 anos, judeu e nascido no Bronx, disse esta enormidade quando o Goldman Sachs lucrava mais de três mil milhões de dólares por trimestre. Era, e ainda é, à conta deste resultado celestial que o banqueiro de Deus enche os seus bolsos com chorudos prémios de gestão.

Passaram, entretanto, quase seis anos e o mundo do Goldman Sachs parece continuar a fazer parte do fantástico mundo de Blankfein. O lucro do banco aumentou, no segundo trimestre deste ano, 74% para 1,82 mil milhões de dólares.

E, sim, mesmo depois de tantas suspeitas e investigações, o líder continua a ser o mesmo e o banco continua, garantem, a mandar no Universo. Como Deus. Blankfein conseguiu dizer, na mesma entrevista, “compreender, ainda assim, que as pessoas se zanguem com os atos dos banqueiros. Eu poderia cortar os meus pulsos, que as pessoas celebrariam”.

São muitos os que garantem que o Goldman Sachs esteve sempre onde havia lodo até à ponta do nariz: na maré negra do golfo do México, na bolha da Internet, na falência do Lehman Brothers, na manipulação das contas gregas e na crise do euro.

Noutra entrevista, Marc Roche, que em 2012 editou um livro sobre os bastidores deste grupo, diz que ali só entram os melhores. “A agressividade e o puritanismo são as regras de ouro num mundo onde se trabalha em equipa e 24 horas por dia”, e se controla até a dieta alimentar, disse ao Público.

Na Europa, acrescenta Roche, o banco não perde tempo com diplomatas, antigos primeiros-ministros ou ministros das Finanças. O alvo são ex-comissários europeus e antigos banqueiros centrais. Como Monti, Draghi, o atual presidente do BCE, e, agora, José Manuel Durão Barroso, o mais novo lobista da finança mundial.

O homem que foi durante 10 anos presidente da Comissão Europeia – uma década sem brilho, diga-se a bem da verdade -, foi incapaz de não sucumbir, nem sei bem ao quê, nem porquê. Não é discriminação, como defendeu o português, é antes moralmente inconcebível. No global e nos detalhes.

Um pacto com o Diabo, com o banco que, conforme garante, por exemplo, o presidente francês, explicava aos gregos como engatar as contas do país. Que as portas do céu estejam já fechadas para Barroso.

Jornalista e diretora do Dinheiro Vivo

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