E quão perto se está dos EUA

Já se chamou La Florida, designação atribuída pelo explorador Ponce de Leão, por ostentar uma vegetação exuberante e floreada, sobretudo no tempo da Páscoa. Pertenceu à coroa espanhola até ser vendida aos americanos, sendo finalmente admitida como o 27º Estado dos EUA, em 1845. Mais concretamente, a transição teve por base o Tratado de Adams-Onís (1819), o qual resultou na aquisição dos territórios por 5 milhões de dólares, formalizada em 1821, na Plaza Ferdinand VII (Pensacola, FL).

Pena é que, talvez por motivos ideológicos, o Presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, não tenha aproveitado esta herança histórica para visitar alguma cidade da Florida durante a sua recente viagem diplomática aos EUA. Em particular, teria seguramente tirado algum proveito em passar por Miami. Com um PIB de 354 biliões de dólares (2018) - mais 100 biliões que o português nesse mesmo ano - esta cidade ocupa a 12ª posição entre as mais produtivas dos Estados Unidos; servindo de residência a várias empresas da Fortune 500, tais como a Lennar Corporation (construção e imobiliário, $22.4 B/ano), a World Fuel Services (energia, $20 B/ano) e a ODP Corporation (Office Depot, retalho, $9.7 B/ano). Além da famosa cadeia de restaurantes Burger King ($1.6 B/ano), atualmente dos brasileiros do 3G Capital.

Miami é, hoje, a capital de facto da América Latina. Com 75% de população hispânica, deve a sua emblemática magia, vitalidade e fulgor económico, à confluência de cubanos, mexicanos, brasileiros, entre outros latino-americanos que abraçaram o american dream e lá se sentem verdadeiramente em casa. Existe, aliás, uma piada que bem retrata esta realidade - dois nova-iorquinos a passar férias na Magic City e que, enquanto se deliciam com piñas coladas, dizem um ao outro:

- Que bem se está em Miami.

- Verdade... e quão perto se está dos EUA!

A segunda área metropolitana mais produtiva da Florida é Tampa (Tampa Bay Area). Com um PIB de $159 B, o 24º maior nos EUA, encontram-se lá sediadas 7 companhias listadas na Fortune 500, destacando-se sobretudo a Publix Super Markets (retalho, $45 B/ano) e a Tech Data (IT, $37 B/ano). A terceira é Orlando, naturalmente. Também conhecida pelo Mundial de Futebol (1994), vencido pelo Brasil de Ronaldo, Romário e Bebeto, esta cidade serve de residência a grandes empresas como a Mosaic (indústria química, $8.6 B/ano) e à rede Darden Restaurants ($8.5 B/ano) - Olive Garden, Cheddar's e Longhorn Steakhouse.

No seu conjunto, a Florida tem um PIB de 1.1 triliões de dólares, o 4º maior dos EUA - e, aproximadamente, o mesmo do México - contribuindo em 5.3% para o total nacional. É também o 4º Estado que mais imigrantes tem acolhido nos últimos anos, com 21% da população nascida no estrangeiro, atrás da Califórnia (26.9%), New Jersey (22.8%) e New York (22.8%). De facto, mais de que acolher, integra. Trata-se de um exemplo de integração. Para termos uma ideia, a taxa de desemprego em New Jersey é de 7.2%, em New York é de 7.4%, e na Califórnia é de 7.5% - isto para não falar no drama californiano do desemprego de longo prazo. Enquanto isso, a Florida consegue ter níveis ótimos de integração ao ponto de manter uma taxa de desemprego nos 5%, ou seja, mais ou menos dentro da média americana.

Qual a razão deste sucesso? A resposta é simples. Um imigrante na Florida imerge num ambiente sociocultural que o estimula a deixar de ser estrangeiro e a passar a sentir-se em casa. Trata-se de uma questão de mentalidade. O sonho americano é para todos, e todos acreditam nele. Qualquer cubano, mexicano, colombiano ou peruano em Miami sente-se mais americano que um liberal nova-iorquino adepto da woke culture.

Deste modo, juntamente com o Texas, a Florida encontra-se, neste momento numa batalha cultural, e consequentemente política, frente à mentalidade progressista que se disseminou em Estados de maioria Democrata, tais como a Califórnia ou Nova Iorque. Os frequentes e acirrados confrontos entre Joe Biden e o Governador Ron DeSantis são, aliás, emblemáticos desta polarização que, desde os finais do primeiro mandato de Obama, tem dividido os americanos.

Assim, de um lado, temos um POTUS que pretende mudar radicalmente a receita de sucesso da maior economia do mundo, para instalar um sistema importado da Europa - um continente velho, estagnado e cada vez mais instável, em termos sociais. Com Biden, a América está a caminhar para a social-democracia, algo impensável há 15 ou 20 anos. Neste contexto, os progressistas mais moderados, nos EUA, fomentam uma idealização do Canadá e dos Países Nórdicos.

Sobre esta idealização, antes de mais, convém esclarecer que, apesar de os mencionados países terem, nas últimas décadas, aumentado drasticamente os impostos sobre os rendimentos dos trabalhadores (sobretudo os que se distinguem pela sua alta produtividade), continuam a ser relativamente conservadores no que respeita o mercado livre e regulamentação. Ou melhor, mais do que conservadores, pragmáticos. Motivo pelo qual ainda não deixaram de ser países ricos.

Ainda assim, as consequências negativas da ideologia social-democrata podem levar tempo a manifestar-se. Todavia, mais tarde ou mais cedo tornam-se indisfarçáveis, sobretudo quando esta se alia a correntes da esquerda radical.

Quem tem a experiência de lá ter vivido, sabe perfeitamente que Canadá apresenta, hoje, um evidente défice democrático. Alguém duvida que, se não fosse a projeção que teve nos EUA, Jordan Peterson teria sobrevivido à cultura de cancelamento, após ter feito frente à esquerda radical no campus da Universidade de Toronto? Quanto aos nórdicos europeus, temos sobretudo o exemplo da Suécia onde, segundo o testemunho de Malcom Kyeyune (um autor marxista pouco convencional), o autoritarismo do politicamente correto alcançou o auge na sequência da crise migratória de 2015; ao ponto de um relatório da Linköping University acusar o Conselho Sueco de Prevenção do Crime de manipular estatísticas por motivos ideológicos.

Por fim, em termos económicos, basta compararmos a evolução do PIB dos EUA com a de qualquer dos mencionados países - os resultados são esclarecedores. Enquanto os nórdicos estagnaram, após a primeira década do século XXI, os EUA não param de crescer a pique, algo que se torna ainda mais impactante quando a esta comparação acrescentamos a UE.

Será razoável os EUA importarem modelos de fracasso quando ainda dispõem de uma receita de sucesso?

Hoje, mais que nunca, é isto que a Florida representa, a luta pela sobrevivência do american dream. Liderada pelo Governador DeSantis, e aliada ao Texas. Ambos os Estados promovem impostos baixos e regulação mínima. Como é natural, esta postura competitiva já rendeu - em particular, à Florida do Sul - o acolhimento de grandes companhias; desde a Blackstone (private equity, $6.1 B/ano) à JetBlue Airways ($2.9 B/ano), entre outras. Contudo, o efeito mais desejado supera as ambições económicas. É cultural. Serve para acordar o país, motivar os outros Estados a voltarem a ser o que eram, e alertar quem governa a jamais se esquecer da regra de outro: Equipa que ganha não se mexe!

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de