Opinião

É só um fantasma no escritório

Fantasma

Isto é algo que os departamentos de recursos humanos fazem há muito tempo mas agora está a acontecer do lado dos trabalhadores: 'ghosting'

Há muitos, muitos anos, numa redacção que já não existe, um estagiário que veio para ajudar na secção de tecnologia simplesmente desapareceu. Ao fim de uma semana, deixámos de lhe pôr a vista em cima, sem mais nem porquê. Nenhuma explicação, aviso, palavra cara-a-cara. Foi o primeiro encontro imediato que tive com um fenómeno que está a explodir no mercado de trabalho tantos anos depois: o ‘ghosting.’

O termo é emprestado de uma dessas tendências de relacionamentos que fazem sucesso nos blogues e sites de lifestyle. ‘Ghosting’ significa desaparecer da vida de uma pessoa sem terminar a relação amorosa, fosse ela oficial ou não. Para evitar rompimentos chatos e ter de dar explicações, a pessoa simplesmente deixa de responder a mensagens e chamadas de voz, bloqueia nas redes sociais e põe filtro no email. As vítimas de ‘ghosting’ ficam perplexas com o comportamento, que apesar de ser um sinal dos tempos não é novo (quem nunca teve alguém que se pisgou da sua vida inesperadamente?). Aquilo que está a suceder agora é este fenómeno, mas aplicado ao emprego.

Tive a experiência inicial com esta novidade quando contratei duas pessoas para um trabalho e elas não só não apareceram como desconectaram o número de telefone que ainda no dia anterior estavam a usar, e com o qual tinham confirmado tudo. A imprevisibilidade do comportamento é muito mais devastadora em certas profissões que noutras – por exemplo, se um fotógrafo não aparece, a reportagem vai por água abaixo. Se um operador de câmara se esfuma, o dia de filmagens é perdido. Poder confiar nas pessoas com quem se trabalha numa economia cada vez mais de múltiplas tarefas, freelancers e autonomia tornou-se a característica mais importante. Não importa que alguém seja um génio se não se sabe se vai aparecer. A consistência é, muitas vezes, mais vital que a excelência.

Nos Estados Unidos, o ‘ghosting’ no trabalho está a acontecer com maior frequência devido a uma taxa de desemprego muito baixa e grande mobilidade no mercado. O LinkedIn publicou recentemente uma peça fascinante sobre o tema, assinada pelo editor Chip Cutter, e o problema tem sido discutido em vários meios de comunicação. Talvez um dos pontos mais interessantes a reter seja este: o ‘ghosting’ de trabalhadores é como dar aos empregadores a provar do próprio veneno.

Isto é algo que os departamentos de recursos humanos fazem há muito tempo. O silêncio total após uma ou duas entrevistas de emprego, nunca acusar sequer a recepção de uma candidatura, o lançamento de propostas de trabalho que depois não são retiradas mas também não têm seguimento. Aconteceu-me algumas vezes, tanto aqui como em Portugal. Há uma abordagem inicial entusiasmada, seguida de conversas e alinhamento de condições, e depois o vazio. Sei que as pessoas em questão não foram sugadas por um buraco negro, porque continuam a exercer funções e a aparecer em público, mas a proposta de trabalho foi um ar que lhe deu. Qual, não sei, porque nunca obtive explicação. A disponibilidade para andar atrás de alguém à procura de respostas é pouca e a utilidade nenhuma. No entanto, tal demonstra displicência em relação ao tempo dos outros e uma certa noção – injusta, digo eu – de que quem tem o poder tem sempre desculpa. O recrutador desaparece e reaparece uns meses mais tarde para retomar a conversa, como se nada fosse, às vezes sem justificar o sucedido.

É isto que está a acontecer, agora, aos empregadores. Os potenciais trabalhadores marcam entrevistas de trabalho e não aparecem. Deixam de responder a telefonemas e emails. Passam pelo processo todo e no primeiro dia de trabalho tornam-se fantasmas. Pior, começam a trabalhar e de um dia para o outro nunca mais lá metem os pés – mesmo nos empregos bem pagos onde se valoriza o talento.

Aos baixos níveis de desemprego eu acrescentaria o seguinte como explicação: estamos numa fase em que existe menos vontade de estabelecer e cumprir compromissos. Ao mesmo tempo, ninguém quer passar pela chatice de dar explicações – até porque nos habituámos, nas últimas décadas, a transferir conexões do cara-a-cara para as mensagens electrónicas, dando menor relevância ao contacto pessoal e, porque não dizê-lo, tornando mais fácil eliminar alguém do nosso círculo.

Por outro lado, é valorizada esta auto-imagem da pessoa ambiciosa, que faz o que for preciso para chegar mais longe, que veste a camisola que lhe pagar mais.

Haverá sempre estagiários que desaparecem ao fim de uma semana e empregadores que levam seis meses a responder a um email, mas se calhar toda a gente beneficiava se levasse em conta esta regra simples: respeito pelo tempo dos outros. Coragem para escrever esse email de rejeição, para fazer esse telefonema a terminar um processo. Seria tudo muito mais fácil se conseguíssemos, colectivamente, dar respostas mais claras uns aos outros. E evitar os fantasmas de passagem.

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