João Adelino Faria

Economês

Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues. Fotografia:  EPA/JOAO RELVAS
Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues. Fotografia: EPA/JOAO RELVAS

Milhões. Percentagens, défice orçamental e estrutural, variáveis, estimativas. Tudo serve para mostrar que sabem muito.

É infelizmente uma das piores características portuguesas. Vivemos num país em que as pessoas se valorizam pelos títulos que têm e sobretudo pela complexidade do discurso que utilizam. Em vez de simplificar, parece que dá algum estatuto em Portugal falar de forma muito elaborada, rebuscada e técnica. E, quando chegamos à época de orçamentos, nada como ir buscar o “economês” para enganar o povo e disfarçar problemas e fragilidades.

É muito mais fácil falar de forma complexa do que construir frases com um sentido simples, claro e eficaz. A simplicidade das ideias e do discurso dá, de facto, muito trabalho e põe a nu a ignorância. Talvez por isso, e quando passámos uma semana inteira a falar do Orçamento, é triste não conseguir encontrar um único discurso que explique de forma clara o que os contribuintes buscam. No final dos debates, das entrevistas e das comissões, ninguém parece saber de facto o que cada um defende ou critica. Será que é intencional? Se não é até parece.

Em época de orçamentos, nada como ir buscar o “economês” para enganar o povo e disfarçar problemas.

Felizmente, a maioria dos portugueses, por causa da crise, já aprendeu mais sobre economia e orçamentos do que alguma vez desejou e sonhou. E hoje, apesar de todos estes malabarismos no discurso, são muitos o que já conseguem ver através da poeira dos números políticos.

Vamos pagar mais impostos ou não? Vamos ter mais dinheiro para gastar ou não? As contas do país vão melhorar ou não? Vamos conseguir pagar as nossas dívidas aos credores ou não?
Perante estas perguntas, feitas e repetidas na televisão esta semana, encontrei quase sempre apenas ruído e pouco mais. Todas as respostas vieram embrulhadas em manuais de economia, disfarçadas com milhões para confundir, e iludidas com termos do mais apurado “economês”. Nem eu nem ninguém ficou seguramente mais esclarecido ao ouvir aqueles que nos deveriam explicar as contas do país.

Numa altura em que tanto se reclama transparência nas decisões, nas nomeações ou nos negócios, seria bom que a mesma exigência se aplicasse ao discurso político. Se, em vez de “economês”, os nossos dirigentes utilizassem o mais simples português bem articulado e falado, talvez todos entendêssemos bem melhor o que querem dizer e, sobretudo, fazer neste país.
A continuarem por este caminho, ainda se arriscam todos a falar… sozinhos.

Pivô e jornalista da RTP

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