Opinião: Carlos Brito

Economia da confiança

Fotografia: Artur Machado/Global Imagens
Fotografia: Artur Machado/Global Imagens

A confiança é a base da evolução de qualquer comunidade, tanto na sua vertente económica como na social ou cultural

Há quem pense que a grande preocupação dos economistas é o dinheiro e que a sua principal competência é saberem trabalhar com folhas de Excel. Há quem pense que as únicas ferramentas que os economistas têm ao seu dispor para assegurarem o crescimento económico – sempre com “contas certas” – são variáveis como a taxa de juro, a despesa pública ou a carga fiscal. Infelizmente há quem pense assim e, mais infelizmente ainda, há economistas que pensam assim.

Na realidade, a variável com maior impacto na evolução económica das sociedades é a confiança – sem isso, o investimento nunca será o suficiente, o consumo será sempre incerto e os níveis de poupança serão mais baseados na incerteza quanto ao futuro do que na segurança.

Os resultados do Barómetro da Confiança publicados anualmente pela Edelman proporcionam informação útil deste ponto de vista. Estruturados em quatro grandes áreas – ONG, Empresas, Governos e Media – os resultados de 2019 baseiam-se em dados recolhidos em 27 países. O nosso não faz parte desse lote, apesar de no passado ter integrado o referido observatório.

Como em tudo, a última edição traz-nos boas e más notícias. As boas têm a ver com o facto de a confiança ter, em geral, subido de 2018 para 2019; as más decorrem do facto de os Governos e os Media continuarem a, globalmente, não merecer a confiança da maioria dos cidadãos, ao contrário do que acontece com as ONG e as Empresas.

Numa análise mais fina verifica-se que os países com maiores níveis de confiança agregada são a China, a Indonésia e a Índia, enquanto nas piores posições surgem a Rússia, o Japão, a Espanha, a Irlanda e o Reino Unido.

Como já aqui tenho dito muitas vezes, os rankings apresentam sempre limitações decorrentes do modelo de referência e da metodologia de recolha e análise dos dados adotada. Mas, independentemente de tudo, há que reconhecer que a confiança é a base da evolução de qualquer comunidade, tanto na sua vertente económica como na social ou cultural. Mesmo a nível micro, pode afirmar-se que a base dos negócios assenta na confiança, pois sem esta não estão reunidas as condições para que as transações se desenvolvam com um mínimo de estabilidade e previsibilidade.

Numa época em que alastra o sentimento de insegurança em relação ao futuro – abrindo a porta a toda a espécie de discursos extremistas proferidos por pretensos salvadores populistas – é essencial que os governos saibam gerar e gerir a confiança coletiva.

Transparência, responsabilidade e cooperação com visão de longo prazo são algumas das suas grandes determinantes. Num mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo não são matéria exclusiva de sociólogos e politólogos. É cada vez mais um assunto que diz respeito aos economistas. Sem isso nunca haverá contas verdadeiramente certas e as folhas de Excel de pouco servirão.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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