Economia de guerra e Give Peace a Chance

A pandemia, pelos confinamentos a que obrigou, pela disrupção das cadeias de valor causadas pelos desiguais períodos de confinamento e pelo desfasamento cronológico desses confinamentos, levou a uma diminuição da oferta de alguns produtos. Essa escassez fez subir os preços dessas matérias-primas ou desses produtos acabados no mercado internacional. Essa subida não constitui inflação no sentido tradicional do termo e seria, como defendeu o Banco Central Europeu, de curta duração. Até se restabelecer o ritmo e os volumes normais de produção.

É certo que algumas medidas de apoio às empresas no período pandémico, nomeadamente as tomadas nos Estados Unidos, com pacotes sucessivos de financiamento público, com recurso ao deficit orçamental, a empresas, às famílias e a um plano muito carregado de obras públicas começou a criar nesse país uma bolha inflacionária a que o Fed tentou responder, sem sucesso, com o aumento das taxas de juro.

Mas tem sido a economia de guerra que tem desatado as portas, até agora contidas, da inflação ameaçando desvalorizar completamente as poupanças da classe média e média baixa, reduzir os salários reais e lançar na miséria os pensionistas.

Os pacotes sucessivos de ajuda à Ucrânia funcionam para a economia americana, e em parte europeia, como a celebre receita keynesiana de "abrir e fechar buracos na estrada" para estimular a procura. Só que aqui a procura que é estimulada é uma falsa procura externa - a procura ucraniana.

Os bens enviados são pagos por duas maneiras: ou ajuda externa, ou pela dívida externa ucraniana. Se forem pagos como ajuda, esse dinheiro será subtraído a outras rubricas orçamentais, como a Saúde, ou aumentarão o deficit publico. Se forem compradas pela Ucrânia, que obviamente não pode pagar a pronto, então significam aumentos da divida externa ucraniana, que esse país não terá possibilidade de pagar e que, muito provavelmente, acabará por ser perdoada agravando a divida externa liquida dos países exportadores. A prazo, ainda maior divida externa significa nova e reforçada austeridade.

Assim as empresas produzem (armas e todo um vasto conjunto de bens, que até incluem conservas de sardinhas portuguesas) são pagas e a contrapartida é a diminuição do poder de compra ou dos serviços públicos, já ou a prazo, dos cidadãos dos países doadores/exportadores. Os bens, provavelmente, nunca serão consumidos nem por quem os envia nem por quem os compra. As sardinhas portuguesas estão a servir de refeição aos soldados .... russos.

Mas, estes bens ao saírem do mercado reduzem a oferta fazendo subir os preços. É uma nova subida de preços em cima das duas camadas anteriores - a causada pelos confinamentos e a causada pela resposta de certos países à pandemia. A inflação dispara sem aparente controlo. Aí desaparecem as magras poupanças e os rendimentos estagnados significam poder de compra diminuído.

Eis, a dupla maneira como esta economia de guerra, nos está a empobrecer: inflação e contas públicas. É tempo para, como dizia John Lennon, "Give Peace a chance".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de