Economia e Saúde Pública: Duas realidades que não são inconciliáveis

Quando, a 18 de março, o número de novos casos diários COVID-19 superou o limiar dos 200, o Estado de Emergência foi declarado e Portugal entrou, prudentemente, em regime de confinamento. Agora, com um número de novos casos diários em torno dos 200, foi declarado o fim do Estado de Emergência. O que mudou então para podermos declarar o fim do Estado de Emergência com mais casos novos diários e casos ativos que quando o iniciámos? Vamos por partes:

Durante as últimas 6 longas semanas, o confinamento geral conseguiu estabilizar a progressão do vírus. No dia 30 de março o Governo publicou a evolução do comportamento do fator Rt, que define o risco de transmissibilidade do vírus, evidenciando que Portugal conseguiu reduzir o respetivo fator de mais de 2 para próximo de 1 e que aí se tem mantido nas últimas semanas. Sabemos que: se o fator Rt for superior a 1, o vírus progride com uma função exponencial; se for igual a 1, a progressão está estabilizada; e, se for inferior a 1, o número total de casos tenderá a reduzir-se. Assim, com um Rt ligeiramente inferior a 1, Portugal está no fio da navalha do equilíbrio da epidemia. Se, de um ponto de vista epidemiológico, há pouco espaço de manobra para efetuar o desconfinamento, porquê iniciá-lo?

Por cada dia de confinamento, um tsunami económico avoluma-se na linha do horizonte. As estimativas do Ministério das Finanças “preveem uma perda de 6.5% do PIB por cada 30 dias úteis que o País que está parado”. Assim, por cada dia de confinamento, o Produto Interno Bruto contrai mais de 400 milhões de euros. Parece, portanto, não haver alternativa à reabertura gradual da economia. Os epidemiologistas reagem a este argumento alertando que reabrir a economia demasiado cedo obrigará a novos ciclos de confinamento intermitentes

e a um tempo de confinamento total intercalado mais elevado. Não estaremos então reduzidos a duas realidades inconciliáveis?

Primeiro, não há dúvida que desconfinar com um risco de transmissibilidade próxima de 1 (tal como anunciado pelo Governo) significará, com uma probabilidade de 1, o aumento do número de infeções e o risco de novos períodos de confinamento intermitentes.

Há, contudo, alternativa a novos períodos de confinamento – que se apresentam como um modelo cego e, portanto, com impacto sem retorno na economia de um País. Vários países (tais como o Japão, Coreia do Sul, Taiwan) mostram ser possível, com mais medidas de contenção rigorosas e “inteligentes”, manter a economia em funcionamento sem confinamento e, ao mesmo tempo, conter a propagação do vírus para um número de novos casos por dia muito reduzido - são estas medidas que se constituem como resposta à questão colocada, traduzindo-se na única possibilidade real de conciliação.

Assim, restam poucas dúvidas de que devemos seguir o caminho trilhado por estes países asiáticos, implementando mais medidas que limitem a propagação do vírus. Foi, nesse sentido, elaborado um documento, enviado ao Sr. Presidente da República, indicando várias medidas, defendidas pelas várias dezenas de médicos que as redigiram e que subscreveram o manifesto. Das inúmeras medidas ilustrativas (slide 1), destaca-se, por um lado, a utilização de uma app de instalação necessariamente voluntária no telemóvel, que permita notificar todas as pessoas em risco por terem estado em contacto com um caso confirmado positivo – designado por contact-tracing (este sistema encontra-se já em implementação em vários países europeus - slide 2); subsidiariamente, o reforço do isolamento obrigatório dos casos notificados e, por fim, o uso de máscaras exigido sempre que fora de casa (slide 3). De acordo uma equipa de investigadores da Universidade de Oxford, se 56% da população britânica usar a aplicação de contact-tracing no seu telemóvel, será possível suprimir a epidemia no Reino Unido. De facto, esta inovação tecnológica afirma-se como uma evolução disruptiva relativamente às medidas de contenção já implementadas aquando da gripe espanhola de 1918/20.

Qual o caminho a seguir? Com um risco de transmissibilidade próximo de 1, não restam dúvidas que o phase-out do confinamento deve ser feito com substituição de cada medida de confinamento por medidas adicionais “inteligentes” de efeito equivalente. Medidas de desconfinamento com pouco impacto económico devem aguardar mais tempo. Assim, neste tempo de emergência nacional e como forma de mitigar a grave crise económica que enfrentamos, temos o dever coletivo de sermos proativos e não deixar uma única medida de contenção “para trás”. Cada momento de procrastinação terá um custo de vidas humanas e de muitos milhares de postos de trabalho. Há sem dúvida uma luz ao fundo do túnel – agora temos o dever de fazer por lá chegar.

Manuel Rodrigues é Docente de Finanças no King’s College London

O risco de transmissibilidade Rt o número médio de casos secundários resultantes de um caso infetado medido em função do tempo.

Solução já seguida por Hong Kong nas últimas semanas.

Prem, K.; Liu, Y; Russell, T.; Kucharshki, A; Eggo, R.; Davies, N.: “The effect of control strategies to reduce social mixing on outcomes of the COVID-19 epidemic in Wuhan, China: a modelling study”, The Lancet, 25/3/2020

Ferretti, L.; Wymant. C.; Kendall, M.; Zhao, L., Nurtay, A.; Abeler-Dörner, L.; Parker, M.; Bonsall, D.; Fraser, C: “Quantifying SARS-CoV-2 transmission suggests epidemic control with digital contact tracing”, Science, 31/3/2020

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