Opinião: Ricardo Reis

Economia sem neoliberalismo

Fotografia: Sara Matos / Global Imagens
Fotografia: Sara Matos / Global Imagens

Não há governo no mundo que não use a economia para guiar as suas políticas de forma sensata, avaliar os seus efeitos, e prevenir disparates.

Quem frequenta uma cadeira de introdução à economia de um semestre e nada mais pode confundir economia com neoliberalismo. A economia moderna distinguiu-se pelo estudo do ser humano como agente que tenta fazer o melhor que pode sujeito às muitas limitações que enfrenta, e pela forma como os mercados e a livre troca entre essas pessoas quase sempre levam a melhores resultados do que o planeamento de um ditador ou de um ministro. Para além disso, a prática da economia no setor privado mostra que é fundamental a compreensão profunda de que não há almoços grátis, os preços são sinais dos mercados, e para todas as escolhas há custos de oportunidade. Praticamente todos os economistas sensatos que conheci na minha vida e que serviram os seus países em funções públicas, regressam com a lição que 90% do seu tempo foi passado a prevenir políticas bem intencionadas mas claramente contraproducentes, que seriam catastróficas por ignorarem os incentivos que criam e as restrições orçamentais que enfrentam.

Ao mesmo tempo, quem fez mais do que uma cadeira de economia descobriu que, depois desta introdução, a maior parte do estudo é dedicado a estudar falhas dos mercados, escolhas individuais que levam a maus resultados no agregado, e milhares de formas através das quais as políticas e regulações económicas são úteis e necessárias. Sempre que os auto-designados críticos da economia, um grupo pequeno mas com uma visibilidade desproporcionada, publica mais um artigo a repetir os mesmos lugares-chaves de há décadas sobre as supostas falhas da economia moderna, 99% dos economistas não se identifica com nenhuma das generalizações que são feitas. Mas porque há uma grande população que só fez uma cadeira de introdução à economia, as críticas parecem fazer sentido.

Esta semana, três respeitados economistas convencionais, Naidu, Rodrik, e Zucman, lançaram um manifesto “Economia depois do neoliberalismo” em conjunto com uma nova organização com nome Economistas por uma prosperidade inclusiva. Pessoalmente, cada um deles tem inclinações políticas que estão muito longe do neoliberalismo, e isto reflete-se no seu trabalho de investigação, que se tem debruçado sobre os direitos dos trabalhadores, sobre as consequências nefastas da globalização, e sobre a desigualdade. O seu objetivo é transmitir ao público que só fez uma cadeira de economia, ou nem isso, ideias e políticas que podem parecer radicais por estarem no diâmetro oposto do neoliberalismo mas que resultam de aplicações convencionais da ciência económica.

Não há governo no mundo que não use a economia para guiar as suas políticas de forma sensata, avaliar os seus efeitos, e prevenir disparates. Pode-se sem dúvida ser um radical neoliberal usando princípios de economia. Mas também se pode ser um radical anti-liberal de esquerda ou de direita sem ter de abandonar a economia tradicional e usar fantasias não-científicas. A economia é um instrumento que se adapta aos valores de quem o usa.

Professor de Economia na London School of Economics

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
(DR)

Revolut. “O produto viral” já tem 300 mil utilizadores em Portugal

Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos. 
(Orlando Almeida / Global Imagens)

Paulo Macedo: Aumento de comissões na CGD rondará os 2% em 2019

Mário Centeno e Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/ARIS OIKONOMOU

Bruxelas com reservas sobre esboço pede plano atualizado

Outros conteúdos GMG
Economia sem neoliberalismo