Opinião

Eficiência no setor da saúde: como será o “próximo normal”?

covid-19 portugal corona virus
PAULO CUNHA /LUSA

Num artigo recente, a McKinsey & Company destacava a necessidade de um “novo músculo”, não apenas um plano, para o período de retoma da atividade económica no que designou de “próximo normal”.

O mesmo artigo referia, entre outros aspetos, a importância das bases de dados, de plataformas agregadoras de informação cuja análise permitirá interpretar sinais, com base nos quais se tomarão decisões de forma ágil e sustentada.

É desse “novo músculo”, de uma imperativa capacidade de suportar o existente e reajustar as circunstâncias a previsões informadas, que se trata. O artigo não se debruçava sobre o setor da saúde para além da referência à pressão a que está sujeita a investigação clínica e científica, para se perceber
melhor o comportamento do vírus, procurar uma vacina e uma terapêutica adequadas.

Mas – com o devido respeito e apoio que nos merecem esses valiosos esforços – há ensinamentos colaterais a retirar desta situação pandémica que transcendem estas dimensões e que devem ser também considerados.

Foi sobre algumas dessas dimensões que incidiu o debate sobre o futuro da gestão de dados neste setor essencial, no Health Data Forum, uma cimeira online que juntou recentemente cerca de 42 especialistas das áreas da saúde e tecnologia, bem como representantes de entidades públicas nacionais e internacionais. Principal conclusão a destacar: a importância da colaboração e partilha de dados no setor da saúde.

Da conclusão fundamental deste evento de que a GS1 Portugal foi parceira, decorre a relevância de uma gestão de qualidade dos dados e da informação no setor, impõe-se uma análise das oportunidades que essa gestão oferece, em termos de ganhos em eficiência. Os benefícios potenciais de uma efetiva integração da cadeia de valor da saúde no nosso país, pela via da adoção de uma codificação única, compatível com standards globais, não constituem novidade. Foram estudados pela consultora Augusto Mateus & Associados, em 2014, e demonstrados no Hospital Dr. José de Almeida, do Grupo Lusíadas Saúde, de Cascais. Nesta unidade Hospitalar, em 2016, foi implementado o sistema integrado do medicamento, assente na codificação, em parceria com a GS1 Portugal. Este sistema permitiu concluir que a adoção de codificadores únicos no circuito do medicamento, em contexto hospitalar, permite uma redução de 28% no tempo médio gasto na administração de medicamentos pela equipa de enfermagem, por utente. O que permitiu que cada enfermeiro, por turno de oito horas, passasse a dispor de mais 22 minutos e meio para a prestação de cuidados assistenciais e para o relacionamento com o doente, libertando-se de procedimentos administrativos.

Estes resultados estão totalmente em linha com as conclusões do estudo liderado pelo Prof. Augusto Mateus, segundo o qual os resultados projetados para a economia nacional para um horizonte temporal de 10 anos demonstravam um forte potencial de obtenção de ganhos líquidos com a adoção dos standards globais em Portugal.

Os resultados daquele estudo revelaram que o elo da cadeia de valor que previsivelmente mais teria a ganhar com a adoção simples dos standards seriam as unidades hospitalares, com uma poupança acumulada que poderia chegar aos 204 milhões de euros. Por sua vez, ainda de acordo com os resultados apurados, um hospital de referência poderia obter uma poupança acumulada que poderia ascender a 4,4 milhões de euros. Ora, perante uma situação pandémica e a necessidade de retoma da atividade, ocorre-nos que o “novo músculo” de que o setor da saúde necessita deveria ter nos dados o seu nervo motor – os dados deveriam informar o “sistema nervoso central” do setor, as autoridades, no processo de tomada de decisão, com vista a uma otimização da eficácia. Fica a sugestão. Quando se assinalam os 15 anos de intervenção da GS1, a nível global, no setor da saúde, que não falte o impulso.

*Diretor-executivo da GS1 Portugal

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