Eis o Clubhouse. Uma semana por lá mostra porque é diferente das outras redes sociais

É uma rede social que fomenta conversas ao vivo e em áudio (não há vídeo ou texto), só está disponível para iPhone e para entrar é preciso ter convite. Foi criada há quase um ano, já vale mais de mil milhões de dólares e graças a Elon Musk, Oprah e companhia passou de 600 mil para 6 milhões de utilizadores em pouco mais de um mês. Eis o Clubhouse, a rede social que já faz (algum) furor em Portugal.

Não há fotos (excepto a foto de perfil de cada um), nem vídeo, nem texto. Não permite partilhas, reações (gostos, corações ou caras tristes e afins), nem tão pouco a escrita de texto - não é possível inclusive mandar uma mensagem de texto a um dos utilizadores. Podemos seguir pessoas e ser seguidos, bem como aderir a salas ou clubes temáticos e ser notificado quando iniciam conversas (sempre em áudio).

Ou seja, é tudo aquilo que as redes sociais atuais (baseadas nas reações, imagens e no texto curto como forma de comunicação) mais populares não são.

A ideia base é ter um espaço moderno para conversas áudio ao vivo (mais longas do que curtas) para desabafar, cativar e ser cativado mesmo enquanto fazemos o jantar, lavamos a loiça ou passamos a ferro. Não há aqui os constrangimentos do vídeo e das vídeoconferências. Porquê? Não temos de estar atentos, nem compostos, nem tão pouco a olhar para quem está a falar connosco, podemos entrar nas chamadas salas só para ouvir, mas também podemos pedir para participar na conversa que decorre entre os chamados moderadores ou criar a nossa própria sala de conversa com ou sem tema. É possível agendar conversas temáticas para o futuro e criar clubes de conversa que outros podem seguir.

Parece combinar os conceitos antigos do telefone e da rádio (ou não fosse o som o rei desta rede social), com o mais recente dos podcasts (conversas on demand), com a vantagem de, tal como no Twitter, podermos acompanhar de forma simples e rápida pessoas conhecidas, famosas, interessantes ou simplesmente desconhecidas.

A popularidade da plataforma, que tem como investidores 'tubarões' influentes de Silicon Valley (Marc Andreessen e Ben Horowitz), foi lançada em iOS (para iPhone) em abril de 2020, em plena pandemia, disparou com a participação em algumas salas de famosos.

Além de Oprah, Drake, Kevin Hart e MC Hammer, Jack Dorsey (CEO do Twitter) também por lá anda, tal como o próprio Mark Zuckerberg (CEO do Facebook). Mas a popularidade da plataforma disparou a nível mundial a semana passada, com Elon Musk a entrar numa sala de conversação com o CEO da app Robinhood - esse momento, no clube Good Time, fez notícia em todo o mundo. Entretanto, Musk já anunciou que a próxima conversa em que vai participar no Clubhouse vai contar com o polémico músico Kayne West.

- Não resisto e sugiro que ouçam o nosso podcast, Made in Tech onde, no último episódio, falamos brevemente sobre o Clubhouse, mas é focado nas criptomoedas, nomeadamente no falhanço da bitcoin como moeda, mas sucesso (para já) como investimento e tecnologia - para isso temos dois especialistas (ouça e subscreva na Apple, Google ou Spotify).

Como ser convidado?

Além de precisar de ter um iPhone (para já ainda não está disponível em Android), se não receber um convite de alguém que conhece, pode descarregar a app, preencher alguns dados (número de telefone é obrigatório) e esperar. Se alguém seu conhecido (que tenha dado acesso à lista de contactos à plataforma) já estiver no Clubhouse, pode aprovar a sua entrada.

Depois, a app que usa uma foto de um utilizador que é músico como logótipo, pede que preencha uma lista de interesses (para lhe sugerir salas ou clubes). Esses podem ir do entretenimento (música, televisão, karaoke), passando por artes, áreas profissionais, tipos de tecnologia, lugares, áreas de bem-estar e da vida em geral (parentalidade, gravidez), assuntos mundiais ou de identidade, conhecimento, fé e desporto.

Somos aconselhados a ter uma foto nossa e o mostrar o nosso nome verdadeiro, embora possamos ter, tal como no Twitter, um nickname e criar um perfil com alguma informação que fica ao nosso critério incluir (pode não ter nada).

Uma experiência... diferente e viciante

Entrei na plataforma no sábado, 6 de fevereiro, no domingo participei de forma ativa na primeira conversa numa sala criada por jornalistas. Tudo começou às 21h30 e já terminou depois da meia-noite (os moderadores estiveram sempre por lá, eu fui entrando e saindo). Pelo meio foram entrando várias pessoas, inicialmente só para ouvir, mas depois eram convidadas a participar na conversa (também podem pedir - colocando uma mão virtual no ar para o fazer).

Exemplo disso foram alguns estreantes conhecidos na plataforma, como Carlos Moedas (atual administrador da Gulbenkian), Rui Tavares (historiador e fundador do Livre) ou Carlos Oliveira (presidente da Fundação José Neves).

Foi possível entrar em grupos de bitcoin e ouvir alguns investidores relevantes falar sobre a criptomoeda, ouvir o CEO da Web Summit, Paddy Cosgrave criticar políticos irlandeses noutra conversa, ou já na madrugada de terça-feira, entrar às 2h da manhã e ouvir o polémico empreendedor e ativista alemão Kim Dotcom (criador do site Megaupload) dizer que há um pacto secreto entre redes sociais e governos, já que mesmo as mensagens encriptadas podem ser lidas, dizia.

Uma das particularidades é a quantidade de horas seguidas que pessoas que acabaram de chegar à nova rede social passam por lá, especialmente quando percebem que estão lá pessoas que conhecem. Participam em conversas e perdem-se no tempo longas horas pela noite (onde começam a proliferar salas mais parecidas com um bar onde se vai beber um copo e conviver - há algumas com música incluída).

Há, assim, um lado viciante peculiar, próximo dos podcasts já que tal como esses, o formato de conversação em áudio longo é aqui rei. Também há ressaca, já que depois de um dia de muito Clubhouse, no dia seguinte apetece fazer detox e não voltar lá. Daí que um ou dois dias de entrarem na rede social, há pessoas a criar conversas para falar se devem ou não desinstalar a app ou sair durante uns dias, tal o número de horas que no dia anterior passaram por lá.

Influenciadores portugueses também participam

Já esta quinta-feira os números de participantes portugueses subiram em flecha e começaram a ver-se cada vez mais apresentadores/influenciadores portugueses. Raquel Strada, Sónia Balacó e Rui Pêgo passaram várias horas à noite na plataforma a falar com conhecidos e desconhecidos numa conversa que só terminou já depois das 3h da manhã e que foi mudando de temas e intervenientes.

Entretanto, vê-se cada vez mais youtubers nacionais, mas também cientistas, investidores, investigadores, empreendedores, especialistas em marketing, artistas plásticos (como Vhils) ou atores e músicos.

Noutra sala foi possível participar com o criador da hashtag, Chris Messina, e o fundador do Second Life (Philip Rosedale) numa conversa que permitia fazer perguntas à Kuki AI, um sistema conversacional de inteligência artificial popular.

Em dias diferentes apanhámos também alguns dos tubarões do programa norte-americano Shark Tank, de Mark Cuban a Barbara Corcoran, passando por Kevin O Leary, onde ouvimos jovens empreendedores portugueses a fazerem perguntas diretamente aos investidores.

Fiquei a saber que o limite de cada sala de conversação é de 5 mil pessoas, ao 'apanhar' uma sessão com os criadores da app, Ben Horowitz (que tem já 1,5 milhões seguidores) e Marc Andreessen, que estiveram à conversa com os utilizadores. Ambos acham que "o momento de apresentar um produto tecnológico é o mais importante", com os dois a admitir que a pandemia e o facto da maioria das pessoas passar mais tempo em casa tem ajudado no sucesso.

Quando são muitos utilizadores a entrar numa sala para ouvir a conversa é mais difícil de conseguir participar, mas a plataforma distingue os que são seguidos por algum dos moderadores e aqueles que não são (só por ordem de visualização).

Esta sexta-feira logo de manhã era possível ver a ex-diretora do Independente, jornalista e advogada Inês Serra Lopes, na plataforma. Abriu uma sala de conversação sem querer e de repente estava a falar com algumas dezenas de pessoas, umas conhecidas, outras desconhecidas. Partilhou histórias curiosas sobre Paulo Portas, Paulo Guerra e outras personalidades da política portuguesa e foi cativada pela jornalista Rita Marrafa de Carvalho a escrever um livro de memórias.

Agora, ao final do dia, minutos antes de publicar esta crónica, uma visita à plataforma permitiu ouvir uma sessão de perguntas e respostas (num clube chamado Press Club, criado por jornalistas e ex-jornalistas) com Harley Finkelstein, o presidente da canadiana Shopify, uma das maiores plataformas de ecommerce do mundo - na sala a ouvir estavam 2200 pessoas.

Vamos então a números

Em menos de um ano de atividade, a app passou dos 600 mil utilizadores em dezembro, para os seis milhões já no final de janeiro (agora serão já bem mais). Um mês depois do lançamento, em maio, o serviço valia 100 milhões de dólares, agora já ganhou o estatuto de unicórnio, superando os mil milhões de dólares de valorização. Até agora já angariaram em investimento superior a 10 milhões de dólares e têm mais de 180 organizações e venture capitalists como investidores.

Facebook e Twitter como rivais?

Sem surpresa, o New York Times anunciava esta quinta-feira que o Facebook estaria a preparar um serviço áudio semelhante ao Clubhouse, havendo a hipótese de o incluir no serviço de conversas vídeo Rooms, lançado durante a pandemia o ano passado - sem sucesso, diga-se.

Mas mais avançado nessa hipótese está o Twitter. A empresa de Jack Dorsey - que está a estudar há muito alternativas ao modelo de negócio (esta semana soube-se que testes para serviço de subscrição vão avançar) - está a testar desde dezembro o Spaces. Para já só está disponível para alguns utilizadores e é uma ferramenta que permite abrir salas de conversação áudio dentro do próprio Twitter, muito semelhante ao Clubhouse.

Certo é que os criadores da app social do momento - a sexta mais descarregada na App Store em Portugal esta semana - não parecem interessados em vender a empresa.

Clubhouse, o oposto do TikTok

Depois do Snapchat e do TikTok - a última rede social a ter verdadeiramente sucesso na era de Facebook, Instagram e Twitter -, o Clubhouse parece explorar um território completamente novo e suscitar paixões e muitas horas de utilização para quem gosta de conversar ou de ouvir (uma alternativa peculiar aos podcasts).

Na verdade, o Clubhouse é o oposto do bem-sucedido a nível global TikTok.

Aí há vídeos curtos, com música para mensagens divertidas e diretas e no espaço de minutos podemos ver e ouvir dezenas de momentos diferentes. No Clubhouse, podemos estar a conversar ao vivo e durante horas com várias pessoas e não requer a nossa atenção visual - daí que possamos estar a fazer outras atividades, como quando se ouve um podcast, por exemplo.

Ainda não é possível gravar as conversas, nem tão pouco ouvir em diferido (ou apanhamos a conversa ao vivo ou não apanhamos), algo que parece propositado e também cria uma vontade de estar atento à rede social - expande o chamado FOMO, Fear of Missing Out, o medo de estar a perder algo importante.

É possível que em breve se possam enviar links para partilhar com os participantes de uma conversa de forma limitada ou guardar uma das conversas em formato áudio (o Spaces do Twitter permite isso).

No fundo, o potencial da rede social conversacional e que aparentemente parece menos afoita à desinformação, ódio ou divisão da sociedade em bolhas extremadas é enorme, mas parece mais de nicho do que o gigante Facebook.

Além disso, se um dos gigantes das redes sociais investir e criar um serviço rival pode prejudicar o Clubhouse. Curiosamente aí o Twitter parece ter mais potencial para o áudio do que o Facebook.

Certo é que as redes sociais onde o texto é rei (Facebook e Twitter) têm fomentado a tal maior divisão da sociedade, com radicalização de posições até porque todos são convidados e incentivados a ter opinião sobre tudo. Aí a conversação ao vivo por áudio parece ganhar ao texto, porque é mais fácil ver um humano como nós do outro lado quando falamos e ouvimos de viva voz, do que quando só usamos texto breve, onde há maior tendência de desumanizar mais quem está do outro lado - isso mesmo indicam vários estudos.

O Clubhouse parece uma ideia vencedora e inovadora, perfeita para tempos de pandemia (em que estamos todos mais tempo em casa), mas ainda terá muito a provar como negócio e rede social duradoura até porque ainda não tem as dores de crescimento nem a necessidade de ter publicidade ou outras formas de rentabilizar o serviço. Promete!

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de