Opinião

Eleições, África, tecnologia e presidência portuguesa da UE

(EPA/ANTHONY ANEX)
(EPA/ANTHONY ANEX)

Em vésperas de eleições, parecem faltar ideias sobre a Europa e empenho para trazer soluções novas.

A campanha eleitoral para as eleições Europeias aproxima-se do fim. Vimos um pouco de tudo mas penso ser correcto afirmar que os assuntos sobre os quais os eleitores estarão mais esclarecidos são essencialmente dois: Joe Berardo e respectivas comendas e José Sócrates, principalmente a novidade de que há ministros no governo que o foram em governos por ele liderados. Paulo Rangel achou por bem afirmar isto com alguma frequência. Parecem faltar ideias sobre a Europa e empenho para trazer soluções novas. Não sei que opinião terá Paulo Rangel dos portugueses para achar que o eleitorado ainda não estava consciente de tal facto, estando o mandato do actual governo a chegar ao fim… do que quase não se falou foi da futura presidência portuguesa da UE. Iremos todos votar com muita e relevante informação sobre estes temas tão pertinentes mas ninguém (ou quase) saberá o que os candidatos pensam sobre o que deveriam ser as prioridades da próxima presidência portuguesa da UE.

O governo já veio afirmar que a sua grande prioridade durante a presidência da UE será África. Mas o debate até agora não foi muito para além disso. Em 2100 a população jovem africana será o dobro de toda a população europeia e metade do número de jovens em todo o mundo será africano. Mas 16 milhões de jovens africanos estão desempregados e apenas 1% dos jovens na África Subsaariana, com idade compreendida entre 15 e 24 anos, participa em programas vocacionais. Os EUA prometeram investimentos em África na ordem dos 14 mil milhões de dólares para a próxima década. O presidente Juncker falou numa nova parceria com África. Veremos o que se seguirá ao acordo de Cotonou, que vigora até 2020. Na última cimeira África-China, O Presidente Xi Jinping anunciou mais 60 mil milhões para África. Curiosamente essa cimeira contou com mais chefes de Estado africanos do que a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Segundo dados da universidade de John Hopkins, entre 2000 e 2016 a China terá investido, sobretudo através de empréstimos, 125 mil milhões em África. Contudo, na sua grande maioria, tal terá que ser pago e com juros elevados. 72% da dívida do Quénia por exemplo já advém da China. E no Djibouti, 77%. No Senegal, vários projectos e grandes infraestruturas estão a ser financiados por um empréstimo chinês de 1,6 mil milhões. Isto multiplica-se por todo o continente. Apesar dos riscos, num recente estudo do afrobarometer, 63% dos africanos acham positiva a influência chinesa em África (No Mali, esse valor foi de 92%). A razão fundamental foi precisamente o desenvolvimento de infraestruturas. Contudo a maioria dos africanos continua a achar que o modelo de desenvolvimento norte-americano é o melhor, e 28% atribuem mais influência aos antigos países colonizadores. Ou seja, a China está cada vez com mais influência mas a Europa ainda pode ter um papel muito importante.

A Europa, desde há algum tempo, tem de facto vindo continuamente a perder influência no continente africano para a China. Mas não só. Na área de tecnologia, as grandes empresas estão a apostar fortemente em África. A Google inaugurou no início deste ano um centro de inteligência artificial em Accra, capital do Gana. Graças ao “tensorflow”, agricultores podem agora diagnosticar eventuais doenças das suas plantas através de uma simples fotografia. A Microsoft abriu o Centro de Desenvolvimento Africano em Lagos e Nairobi e irá empregar mais de 100 programadores prevendo contratar pelo menos 500 até 2023 em áreas como a inteligência artificial, realidade mista e machine learning.

A Transsion, empresa chinesa de telemóveis, ao que se sabe, não tem uma única loja em toda a China mas domina o mercado africano deixando para trás empresas como Apple, Huawei e Samsung. A Transsion, através da sua marca Tecno, já detém uma quota de mercado superior a 50% do mercado africano de telemóveis. Porquê? Uma das razões foi uma câmara mais sensível às peles escuras e que faz com que as fotografias fiquem mais brilhantes. A isso junta-se preço e durabilidade. Em 2015 apenas 28% dos africanos usavam telemóveis – na China esse valor era de 97%. É fácil de constatar o potencial de crescimento.

Perante isto, a Europa tem de se posicionar sob risco de ficar cada vez mais irrelevante. A aposta do governo para fazer de África a prioridade da presidência portuguesa é a correcta. Mas terá de ser específica e com acções concretas. O tempo da retórica e da política feita com soundbytes mas sem conteúdo acabou – pode ter efeitos no telejornal da noite mas em nada contribuirá para o fortalecimento das relações UE-África.

Leia aqui a entrevista a Hugo Zsolt de Sousa

Há questões inevitáveis se quisermos de facto ter uma nova parceria com África: em primeiro lugar reconhecermos que África é dos e para os africanos. A UE deve ser um parceiro activo, potencializando a boa governança de líderes democraticamente eleitos, mas não lhe compete determinar quais as prioridades de desenvolvimento do continente africano – isso compete aos africanos. Isto implica uma nova abordagem por parte da Europa e criação de sinergias entre as várias agências de desenvolvimento europeias, bem como uma evolução por parte das organizações multilaterais. Não podemos continuar a afirmar que a Europa não tem dinheiro e depois ter várias agências de desenvolvimento e cooperação europeias a actuar com pouca coordenação entre elas e com apoios muitas das vezes para objectivos díspares e contraditórios.

Em segundo lugar, qualquer parceria tem de reconhecer e potenciar a juventude africana. Novas oportunidades, através de um plano de investimentos direccionado para o continente africano permitiriam fixar em África o melhor recurso que o continente tem – as pessoas – e criar novas oportunidades para as empresas europeias. Um plano Marshall para África com investimentos em escala. A Europa deveria discutir o seu one belt one road para África ao invés de andar a discutir se participa ou não no plano chinês.

Finalmente, a especificidade do Magrebe e do Sahel, regiões tão próximas a Portugal e com tantos desafios – se a Europa não agir rápido pagará os custos dessa mesma inacção. A Europa pode e deve mostrar liderança e propor a outros países um “compacto para o Sahel”. É tempo de a Europa assumir a liderança – não poderá fazê-lo sozinha mas pode liderar essa mudança. Portugal terá oportunidade de ser o expoente disso mesmo. Convém relembrar os esquecidos: apenas 14 km separam a Europa de África.

Hugo Zsolt de Sousa é diretor no Institute for New Economic Thinking. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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