Opinião: Rosália Amorim

Elisa Ferreira, mais do que uma cadeira vazia no Banco de Portugal  

Elisa Ferreira 
( Álvaro Isidoro / Global Imagens )
Elisa Ferreira ( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

Muitas vezes as mulheres são escolhidas para cargos de liderança por representarem fortes agentes de mudança.

A Comissão Europeia nunca teve tanta paridade de género. É inédita a composição do colégio de comissários que ontem ficámos a conhecer: 14 homens e 13 mulheres. Entre elas está a portuguesa Elisa Ferreira. Uma boa notícia para Portugal e para as mulheres — mas só para aquelas, como eu, que gostam e muito de ver outras mulheres a brilhar, a progredir e a ocupar lugares de destaque. A presidente da Comissão Europeia é também uma mulher; e ainda bem. São sinais dos tempos, de um mundo em mudança, finalmente.

A missão da presidente e dos seus comissários não se avizinha nada fácil: tornar a Europa mais coesa, minorar os efeitos dos fenómenos de desagregação (já nos basta um brexit!), negociar acordos e, sobretudo, cortes orçamentais e ainda reforçar o papel da Europa no mundo, quando o mundo se avizinha uma casa cada vez mais difícil e competitiva.

Muitas vezes as mulheres são escolhidas para cargos de liderança por representarem fortes agentes de mudança. Na academia, quem estuda o fenómeno da ascensão das mulheres no poder político e económico assim o defende, como se lê em papers de Harvard publicados nos últimos dez anos.

Vai ser preciso abanar o statu quo, colocar em causa lobbies fortes e perigosos, questionar indústrias tradicionais e poluentes, etc., para implementar os objetivos que a nova presidente da Comissão Europeia anunciou ontem. Entre eles, destacam-se as metas propostas para a área ambiente e a área digital. Duas disciplinas a que ainda poucos se habituaram, mas que vão ditar o futuro da competitividade da União Europeia.

Elisa Ferreira, antiga ministra do Ambiente, antiga ministra do Planeamento e ex-vice-governadora do Banco de Portugal, tem um currículo recheado de experiência e fará, certamente, um bom papel, tal como o desempenhou no Banco Central.

É aí que também um destes dias poderemos assistir a um abanar do statu quo. A saída da vice-governadora do Banco Central deixa mais do que uma cadeira vazia, deixa uma porta aberta a mudanças e que muitos anteveem como desejadas pelo atual governo.

Elisa Ferreira sempre foi vista como uma potencial sucessora de Carlos Costa, atual governador do Banco de Portugal. E é sabido que nem António Costa, primeiro-ministro, nem Mário Centeno, ministro das Finanças, são os melhores amigos do governador. Estando agora Elisa Ferreira em Bruxelas poderá abrir-se caminho, com calma, para a escolha e preparação do próximo sucessor à liderança do BdP. Mário Centeno seria, certamente, um fortíssimo candidato à função. Muitos acreditam que poderia desempenhar bem esse cargo, afinal é um ex-quadro do Banco de Portugal, um ministro a quem já chamaram de “Cristiano Ronaldo das Finanças”, e tem sido um presidente do Eurogrupo reconhecido pelo seu desempenho.

As mudanças ainda não começaram no BdP e este até pode ser apenas um simples exercício de antevisão numa bola de cristal, mas o mercado financeiro acredita que a saída de Elisa Ferreira é muito mais do que uma cadeira vazia.

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