Em defesa dos milionários a caminho do espaço

Onze minutos. É a duração da primeira viagem tripulada da Blue Origin, marcada para esta terça-feira, quando o homem mais rico do planeta cumprirá um sonho que tem desde os cinco anos. Jeff Bezos pode ter mudado o mundo com a criação da Amazon, mas o que ele ambiciona é mais que isso: mudar também a relação da humanidade com o espaço.

Não é preciso ser fã de Bezos para apreciar a importância deste momento. O milionário fundou a Blue Origin anos antes de Richard Branson ter aberto a Virgin Galactic e de Elon Musk ter criado a SpaceX. De certa forma, a Amazon foi um projecto que Bezos foi fazendo enquanto não era possível dedicar-se à exploração espacial - e o caminho mais certo para a riqueza extrema, que agora lhe permite ser um milionário a caminho das estrelas.

Desde que Richard Branson se apressou a dar uma volta na VSS Unity, na semana passada, para se antecipar a Jeff Bezos num voo sub-orbital, a discussão sobre a corrida ao espaço descambou para os extremos. Por cada análise aos detalhes dos dois voos - que não são a mesma coisa porque Branson não chegou à Linha de Kármán, internacionalmente reconhecida como a fronteira invisível para o espaço - apareceram dez a criticar o desplante destes milionários egomaníacos.

A tese é que o mundo está a cair aos bocados, infestado pelo coronavírus, a crise climática, a desigualdade económica e as mais impenetráveis divisões sociais. Perante isto, roça o cruel que haja um par de milionários a gastarem tantos recursos em viagens que parecem jogadas de marketing mescladas com despiques pessoais.

Inúmeros artigos salientaram isto mesmo, e o auto-proclamado socialista democrático Bernie Sanders colocou-o num tweet: "Aqui na Terra, no país mais rico do planeta, metade do povo vive de salário em salário, as pessoas têm dificuldade em se alimentarem, em irem ao médico - mas hey, os homens mais ricos do mundo vão ao espaço! Sim. Está na hora de taxar os bilionários."

Sanders tem razão nesta última parte: empresários como Bezos e Musk são altamente eficazes a arranjarem forma de pagarem poucos ou nenhuns impostos, apesar da sua escandalosa acumulação de riqueza. Não se percebe que o trabalhador comum tenha tantas obrigações fiscais e que quem nada em dinheiro consiga manipular o código para não pagar impostos. Coisas incompreensíveis do sistema norte-americano, em particular, que é demasiado flexível para os poderosos e rígido para os trabalhadores.

Mas o resto do argumento não faz sentido. Não se trata de problemas ou soluções excludentes. Lendo a argumentação, fica-se com a ideia de que este dinheiro ou é usado para ir ao espaço ou para resolver a fome no mundo. É uma falácia. Nem Bezos nem Branson nem Musk são governantes eleitos. Pessoalmente, acredito que têm a obrigação de pagar mais impostos e até de montarem as maiores operações de filantropia da história, mas não é sério propor que resolvam os grandes problemas da sociedade.

Acresce que a exploração espacial trará, como trouxe nos últimos 64 anos, enormes benefícios científicos e tecnológicos, plasmados em muitos dos recursos que hoje usamos para nos facilitar a vida. A investida destes milionários no espaço vai beneficiar toda a gente, ainda que esse impacto demore a ser visível, e por isso é injusto caracterizar estas viagens como massagens ao ego de pessoas muito ricas. O progresso que iremos fazer na expansão das viagens ao espaço será acelerado, condensado em menos anos, levado para limites que talvez não fossem possíveis apenas com investimento público.

Diz-se deste lado do Atlântico que é possível andar e mascar pastilha ao mesmo tempo. É essa a perspectiva que devemos ter em relação à corrida ao espaço. Suponho que a ideia de malhar em cima de milionários seja atractiva num momento como este, em que titubeamos na recta final da pandemia, buscando em desespero o fim do túnel que teima em não chegar. Mas eles merecem ser chamuscados pela mísera contribuição para as máquinas fiscais dos mercados onde operam e pelas condições que dão aos seus trabalhadores - não pelas ideias grandiosas a 100 quilómetros de altitude, em busca do sonho, do infinito, e do mais além.

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