Empresas e ideologia

De pouco vale criar instituições se não formos capazes de as dotar de recursos financeiros próprios, pessoas qualificadas e parceiros que aportem competência.

A criação de um Fundo Soberano (FS) é uma hipótese colocada no documento de Costa Silva, quase sempre em ligação (“e/ou”) com o chamado Banco de Fomento (BF), revelando preocupação em garantir competências institucionais que viabilizem a eficaz afetação de recursos, de acordo com as prioridades estabelecidas. Tacitamente, reconhece-se uma falha no atual quadro de instituições públicas.

Os propósitos do BF e do FS são, em princípio, diferentes havendo países que atribuíram ao respetivo banco promocional ambas as competências (dotando-o adequadamente). Portugal, como um dos últimos a institucionalizá-los, pode beneficiar da experiência alheia em geral e na resposta às consequências económicas da pandemia em particular.

Por exemplo, o governo irlandês incumbiu o respetivo fundo soberano de criar um subfundo de estabilização focado no investimento em médias e grandes empresas, enquanto o BF continuaria mais focado nas empresas de menor dimensão. Leu bem: médias e GRANDES empresas, as tais que partidos, governo e parceiros diabolizam regularmente.

De pouco vale criar instituições se não formos capazes de as dotar cabalmente, não apenas de recursos financeiros próprios, como de pessoas qualificadas, a começar na administração, e de parceiros que aportem competência e meios financeiros. Tudo há de desaguar num modelo de governação e funcionamento transparente e eficaz, em que o acionista defina um plano plurianual com objetivos claros que permita a avaliação e responsabilização da equipa de gestão.

A pandemia expôs a fragilidade da nossa especialização. Já o reforço do investimento empresarial em I&D, em 2019, abre uma janela de esperança que é essencial alimentar. Mais ou menos polémico, o plano Costa Silva oferece enquadramento e alternativas. Fundo soberano à parte (gostava que fosse discutido!), é preciso cautela no que se pede ao BF, no curto prazo. Em qualquer cenário, pequenas, médias ou grandes, as empresas terão um papel fulcral que não se compadece com ideologias estatizantes e seletivas.

Economista e professor universitário

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de