Opinião

Engagement 4.0

Tiago Forjaz

Tenho dedicado algum tempo da minha vida a pensar e a ajudar a pensar sobre a felicidade das pessoas no mundo do trabalho, sendo que uma dessas vertentes é tipicamente designada por “engagement”. Depois de deixar passar o embate que sempre me provoca (porque penso para mim, porque será que não usamos a palavra portuguesa – compromisso?), procuro escutar o que é que as pessoas pensam sobre o tema.

Foi assim, a ouvir os outros, a ler, estudar e a refletir, que construi um ponto de vista, que talvez valha a pena considerar. Todos começamos por falar nas estatísticas que mostram a falta de compromisso que as pessoas sentem com o seu trabalho. Depois a conversa evolui para uma correção natural quando as pessoas se apercebem que não se sentem conectadas com os seus líderes (que na realidade são chefes). Logo a seguir, nasce a eterna questão da cultura da empresa e o derrotismo que todos experimentamos quando concluímos que será impossível sentir compromisso com coisas que não vamos poder mudar.

Mas, aprendi através de vários autores e com múltiplas definições, que o compromisso é na realidade uma “promessa mútua”. “Engagement” é também sinónimo de noivado e todos sabemos como é que isso funciona (pelo menos sabemos que é algo que não funciona unilateralmente). E é precisamente aí que devemos começar por pensar. Sim, porque uma empresa só tem um propósito, uma estratégia, um modelo de valores (que inspira a cultura), e um plano (com um conjunto de objetivos).

Vejo o propósito de uma empresa como o “Porquê”…porque existimos? Vejo a Cultura como o “Como” e vejo o Plano como o “O Quê”…o que precisamos de atingir. Mas a pergunta que normalmente vejo desatendida é o “Para Quê”. Sim, para quê que vamos fazer isto? Para mim, essa é a pergunta que ajuda as empresas a abordar as pessoas.

Sei que às vezes não é fácil alinhar todos os colaboradores com tudo isto…mas o ponto de vista que me interessa explorar é o oposto. Cada pessoa dentro de uma empresa também tem um propósito (mesmo que ainda não o tenha consciencializado ou expressado), tem uma estratégia de vida e um conjunto de objetivos que são importantes. Se pensarmos na história de uma empresa como única, também podemos pensar nas várias versões dessa história se olharmos para ela, pelos olhos de quem lá trabalha. Se quiséssemos pensar nas pessoas que trabalham numa empresa como os atores de um filme em que cada um tem um papel, seria possível realizar essa história de uma maneira diferente. Mas o que precisaria de mudar? Talvez os líderes precisassem de ocupar mais o seu tempo a conhecer as suas pessoas, de ajudá-los a perceberem e a realizarem os seus propósitos, a considerarem o que são os seus planos de vida e os seus objetivos pessoais. Se até aqui havia inúmeras desculpas para não o fazerem, parece-me cada vez mais absurdo não o fazerem.

O mundo do trabalho vai automatizar todas a tarefas repetitivas, as pessoas vivem com medo de ficarem sem emprego, todos nós papagueamos a necessidade de sermos cada vez mais humanos e cada vez mais valorizamos o contacto humano. Então fica a questão, porque será que ainda não começámos a incluir todas as pessoas e as suas aspirações para as conectarmos com os líderes e com a cultura das empresas? O que será o engagement na era 4.0? Será que queremos que seja um robot a fazer as perguntas certas para podermos encontrar o que nos importa na vida? Queremos que seja uma app a resolver-nos esse problema? Face aos rápidos avanços tecnológicos, é necessário aprender a lidar com estas questões, sendo que, neste campo, existe a SingularityU Portugal, uma instituição que tem como missão capacitar e abrir os horizontes dos líderes das organizações, tornando-os otimistas sobre o uso de tecnologias emergentes na resolução dos grandes desafios da sociedade.

Para mim, esta uma oportunidade para sermos mais humanos, porque para mim “engagement” é a promessa que cola o Propósito, a Estratégia, o Plano e os Valores. Porque na realidade é a pergunta que motiva e inclui e explica porque será que o meu trabalho importa e porque o estou a fazer. E só essa pergunta pode aproximar líderes humanos das suas pessoas e construir uma cultura onde todas as pessoas são personagens numa grande história.

Tiago Forjaz é fundador e managing partner da MighT – Talent Strategists

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