Opinião

Ensaio sobre a reinvenção

Carlota Ribeiro Ferreira

Ao despertarmos para consciências maiores, vamos ficando mais recuperados e preparados para movimentos maiores. No fundo, é isto a reinvenção: é a procura, é o encontro, é o princípio da continuidade para que o caminho se faça com ritmo e a história se faça mais longa, mais plena de vocações e realizações.

Ladies and gentlemen, The Rolling Stones!

30 álbuns de estúdio, 28 álbuns ao vivo, 120 singles originais. Uma produção discográfica incrível que gerou mais de 240 milhões de álbuns vendidos e mais de 2000 concertos em todo o mundo. E continuam na estrada.

Para mim, o mais fascinante dos Rolling Stones é a capacidade de criação e de reinvenção ao longo dos tempos. Só assim é possível construir uma história de 58 anos que, como as outras grandes histórias de sucesso, é feita de altos e baixos, crises, tensões, inspirações e transformações. Umas transformações são mais lentas, e reconhecemo-las em retrospetiva pois resultam de um encadeado de mudanças e bravuras incrementais ao longo do tempo, outras são mais intuitivas, ou disruptivas provavelmente, e ditaram pontos de inflexão mais evidentes. Ambas fazem a grande história.

Considerada uma das maiores bandas do mundo, a abertura à reinvenção e ao crescimento está na sua essência, no seu modo de ser e de estar. Há um arrojo, uma rebeldia até, que leva os Stones a ouvir a maior variedade de musicalidades possível, a experimentarem combinações de sons e de palavras que outros provavelmente achariam estranhas, a convidarem grandes talentos para composições conjuntas, a adotarem uma postura que os fez diferentes de todos os outros ao ponto de criarem uma cultura própria que inspira milhões de pessoas em todo o mundo e que atravessa tempos e gerações.

A história dos Rolling Stones é grande – enorme e extraordinária – mas acredito que a outras escalas, por outros propósitos e para outras missões, há matéria e há sobretudo atitude de reinvenção que pode inspirar outras histórias.

Vejo a reinvenção como o princípio da continuidade. O que permite continuar e adicionar novos capítulos a uma história. Seja a história da vida de uma pessoa, de uma relação, de uma empresa, indústria, cidade, nação ou mundo.

Várias foram as pessoas que pensaram sobre reinvenção mas recentemente li um artigo da Merete Wedell-Wedellsborg na Harvard Business Review, que me inspirou e me fez muito sentido de explorar neste momento específico da história da humanidade em que somos chamados a reinventar, na sequência de uma pandemia global que parou o mundo, as pessoas, os saberes e os fazeres.

Antes, vale a pena entender o que espoleta uma vontade de mudança e de reinvenção. Em termos simplistas, podemos dizer que a reinvenção pode ser espoletada por algo mais endógeno, mais de dentro de nós, uma certa insatisfação que nos leva a questionar um determinado presente e a tentar novas vias para crescer e ir mais longe num futuro que acreditamos poder ser diferente e melhor; ou por algo mais exógeno, digamos contextual – algum acontecimento externo que lança novas circunstâncias, que não prevemos ou controlamos, e que nos obriga a reagir, a repensar e a responder com novas formas de estar, fazer e entregar.

Temos de estar preparados pois vamos ter, ao longo da vida, necessidade de nos reinventarmos a nós, aos nossos projetos e às nossas arenas, por ambos os motivos. Esses motivos de reinvenção podemos defini-los como ‘crises’ – maiores ou menores, mais endógenos ou mais exógenos, mas o que nos desperta para uma mudança é efetivamente uma crise, uma insatisfação, que nos conduz a uma necessidade de superação, uma vontade de novas conquistas.

Hoje, foquemos na reinvenção que temos de abraçar devido a fatores exógenos – mais concretamente, devido à covid-19 que nos trouxe uma crise global e toda uma nova realidade. E voltemos então a Merete Wedell-Wedellsborg e ao seu artigo.

Merete Wedell-Wedellsborg é uma psicóloga dinamarquesa, consultora e autora do livro Battle Mind: Performing Under Pressure. Tem um interesse especial por contextos de crise, líderes e equipas em cenários de incerteza.

Porque é que eu gostei deste artigo de Wedell-Wedellsborg? Porque nos fala de forma aberta e elucidativa sobre as emoções de uma crise. E vendo a reinvenção como uma consequência de uma crise, é importante entender as emoções no sentido em que uma reinvenção pressupõe um estado emocional positivo e combativo e que ao longo de uma crise há todo um ciclo psicológico que nos desafia.

Neste artigo, Merete Wedell-Wedellsborg apresenta os estágios psicológicos associados a uma crise, desmistifica certos fenómenos e providencia ideias e estratégias que podem ser úteis para transpormos os momentos em que nos podemos sentir mais esmagados e incapazes de reagir e, portanto, de reinventar.

Merete diz que se quisermos desconstruir uma crise encontramos, em termos gerais, uma história em três atos: emergência; regressão e recuperação.

Na fase de emergência, a surpresa, o choque e o sentido de urgência, levam-nos a ser extremamente perspicazes, pragmáticos, produtivos e colaborantes. É uma fase em que os líderes são chamados a exercer com muita objetividade, clareza e foco nas prioridades. Tipicamente há uma liderança natural que é reconhecida, que é inspiradora e mobilizadora, as equipas respondem e alinham-se numa cultura de colaboração muito forte. Há uma união inquestionável em torno de uma missão repleta de pressa. A tomada de decisão é rápida e tudo está pronto para a ação. É uma fase intensa em que descobrimos energias e poderes que julgávamos não ter. Há uma enorme motivação e uma grande capacidade para gerir a crise e vencer as dificuldades mais imediatas e óbvias.

Segue-se a fase de regressão, a mais difícil de todas. É carregada de cansaço, as pessoas vivem com um novo normal, não há propriamente novas motivações e perde-se por vezes o sentido do propósito. Em termos de psicologia do desenvolvimento, as pessoas dão um passo atrás quanto à maturidade em lidar com a pressão. Segundo a autora, a regressão é como que uma forma da mente se defender da confusão e da insegurança, reservando-se numa zona de aparente conforto emocional mas que traz muito pouco espírito de combate para o caminho que ainda há a fazer e que não tem as luzes da fase de emergência. Há monotonia, há espera, há falta de estímulos, ganha-se mais noção do incerto e as pessoas sentem-se desconfortáveis, perdidas e pouco focadas.

A fase de regressão é dura e é aquela em que muitos se encontram atualmente. É normal. É normal e faz parte do ciclo psicológico de uma crise mas há que adotar estratégias para sair progressivamente deste estágio, e entrar em modo de recuperação pois aqui sim, estaremos mais abertos e preparados física, emocional e relacionalmente para transformações mais estruturais, reinvenções e definições de caminhos para um maior e melhor futuro.

Agora, como reagir e ultrapassar as baixas frequências da tão desafiante fase de regressão?

Merete Wedell-Wedellsborg faz três sugestões de movimentos que podem ser interessantes para nos desafiar para novos desenvolvimentos:

1. Provocar a equipa e promover um novo dia um – com novos projetos, desafios e responsabilidades, idealmente diferentes das que as pessoas tinham antes, no sentido de haver novas oportunidades de aprendizagem, de procura e de realização, e que podem gerar toda uma nova energia e um novo compromisso;

2. Aprender a calibrar as emoções das pessoas – estabelecendo uma comunicação aberta sobre emoções, estados de alma e agitações, dando conforto e confiança, mostrando compreensão e orientação, no fundo, que estamos juntos para novos crescimentos;

3. Definir uma nova ambição que vá além do negócio. Aqui pretende-se passar da questão ‘como gerir a crise?’ para ‘como sair da crise?’, ou seja, conseguirmos posicionar a organização como um player verdadeiramente atuante, que cria valor para uma sociedade maior. É criar quase que um novo ponto de stress, mas desta vez positivo, inspirador e carregado de novo propósito.

Este artigo de Merete Wedell-Wedellsborg é interessante para desconstruir alguns fenómenos de bloqueio das pessoas que as deixam sem predisposição e sem capacidade de reinvenção.

Acredito que ao despertarmos para consciências maiores, vamos ficando mais recuperados e preparados para movimentos maiores. No fundo, é isto a reinvenção: é a procura, é o encontro, é o princípio da continuidade para que o caminho se faça com ritmo e a história se faça mais longa, mais plena de vocações e realizações.

E quando é que esta dinâmica da reinvenção para? Pois. Não para. E daqui fecho com Fernando Sabino, escritor e poeta brasileiro que viveu entre 1923 e 2004, que de forma tão simples, tudo nos diz sobre tudo isto.

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar, a certeza de que podia ser interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”, in O Encontro Marcado.

E assim, quando nos reinventamos, encontramo-nos. Encontramo-nos.

Carlota Ribeiro Ferreira, CEO da WIN WORLD

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