Ensino universitário pós-Covid

Em todo o mundo o ensino universitário foi fortemente abalado pela pandemia. As aulas presenciais sofreram interrupções e foram substituídas pelo ensino à distância. Agora que em alguns países a pandemia parece estar controlada é tempo de refletir sobre os caminhos que se abrem às Universidades.

Desde logo a constatação de que existe uma enorme procura para o ensino à distância. Em regime laboral ou pós-laboral, estudantes de proximidade ou distantes, o facto é que a oferta de cursos superiores, licenciaturas, pós-graduações, mestrados ou doutoramentos, ministrados de forma remota veio para ficar. E quem os não oferecer vai perder alunos e oportunidades.

Com o ensino à distância vem o fim do protecionismo geográfico. Hoje a maioria dos alunos das universidades é do próprio país. A proximidade e a língua ajudavam a proteger as universidades locais. Alguns países com uma qualidade de ensino acima da média conseguiam atrair muitos estudantes estrangeiros mas estes nunca chegaram a representar a maioria. Com a disseminação do ensino à distância e o domínio generalizado do inglês esta realidade vai mudar rapidamente.

O ensino à distância permite a um português estudar em qualquer ponto do mundo e com menores custos do que se tivesse de se deslocar para esse país. O inverso é menos verdade, é mais barato um inglês/americano/ francês vir estudar para Portugal do que no seu próprio país, mas como a qualidade do ensino é inferior não se sentem atraídos pelo nosso país. Isto é, as Universidades portuguesas vão perder alunos para o ensino à distância de outros países e simultaneamente não conseguirão ganhar muito mais alunos presenciais dessas geografias.

A concorrência internacional vai concentrar-se nos estudantes das camadas médias da população, i.e. com dinheiro para pagar propinas estrangeiras mas sem recursos de as pagar e simultaneamente sustentar os filhos no estrangeiro. Esta camada intermédia é a principal fornecedora de alunos para as universidades públicas e privadas. Temos, pois, aqui uma ameaça clara para as instituições portuguesas.

Por outro lado não basta oferecer conteúdos à distância. Os alunos estrangeiros não se encaminham naturalmente para as universidades portuguesas como o fazem os estudantes locais.

Um esforço de comunicação tem de ser feito. Mas primeiro é preciso eleger mercados, escolher posicionamentos. Sem uma estratégia de internacionalização e de marketing não será possível obter resultados. Para ter escala é preciso que várias universidades colaborem. Internacionalmente as universidades que mais gastam em comunicação são simultaneamente as que detêm maior quota de alunos no ensino à distância.

É também necessário reforçar a qualidade do ensino e tudo o que lhe está associado - bibliotecas digitais, convício social, métodos de aprendizagem, atividades extracurriculares, etc. - para o meio digital. E claro, garantir que os professores dominam o inglês (o que ainda se não verifica) e outras línguas dos alunos. O mercado de recrutamento de professores também se alarga, já não sendo necessário a um professor estrangeiro vir morar em Portugal.

Importante também é alterar os ciclos de entrada dos alunos. Nas universidades portuguesa esse ciclo é anual. Em muitas universidades pelo mundo fora existem atualmente três ciclos anuais. Nos cursos à distância fala-se já de seis ciclos anuais de recrutamento e entrada. Estamos preparados para esta nova forma de operar?

As Universidade portuguesas parecem não ter ainda consciência desta realidade e tardam em preparar-se, desejosas como parecem estar de voltar ao "antigamente". Um erro estratégico colossal.

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