És feliz?

Experimentem não querer saber se os vossos filhos são felizes ou não. Experimentem fazer como nas dietas: só me peso no fim; até lá, sigo o programa de maus tratos recomendado/impingido pela nutricionista. Deve ser libertador.

Digo deve ser, porque nunca experimentei. Até agora só fiz a dieta da farmácia e pesei-me a toda a hora - um desassossego e uma montanha russa de emoções. Eu sou como toda a gente: trato da felicidade dos nossos filhos como trato dos quilos: a regra é medir a toda a hora com pavor que a coisa não esteja a correr bem. O pior é que não há balança para a felicidade. Eu bem tento com perguntas: és feliz? Há pergunta mais parva? Não. O miúdo disse-me "mais ou menos", porque tem irmãos a mais que o chateiam e porque gostava de beber ice tea todos os dias, o que não acontece sequer com regularidade, quanto mais todos os dias.

De resto, médio. E encolhe os ombros com a sensibilidade de quem não quer ofender ninguém. Aos mais velhos nem me atrevo a perguntar: há os que estão na crise da adolescência, logo acham-se as pessoas mais incompreendidas e ignoradas do universo, e por isso, infelizes; outros a quem a resposta a esta pergunta depende de terem ou não saldo no telemóvel ou de poderem ou não sair à noite. Perguntar "és feliz?", é uma infantilidade dos pais, é o mesmo que medir o peso com uma fita métrica - também é uma estupidez. Perguntamos alhos e respondem-nos bugalhos. Perguntamos sobre uma realidade transcendente e eles respondem-nos sobre estados de alma imaturos. És feliz? Vou só ali ver se há minis no frigorífico e já digo.

Outro indicador a que nos agarramos é a quantidade de sorrisos, a boa disposição. Mais uma parvoíce: todos sabemos que rir muito só quer dizer que se está ou se é bem disposto ou um pateta alegre. Uma pessoa feliz pode ser sisuda, tímida, com pouco sentido de humor, mas feliz da vida no seu cantinho. O mesmo se passa com os nossos filhos que não são diferentes do comum dos mortais (desculpem, mas alguém tem de vos dizer isto).

O que eu vejo à minha volta são pais a quererem arrancar sorrisos aos filhos, assim como se arrancam dentes. Fazem tudo por um ligeiro esboço de sorriso como se fosse um sinal de que a vida lhes está a correr bem, que estão a desenvolver-se em harmonia com o transcendente e que é a nós, os seus criadores, que isso devem.

Pois, desistam. Está tudo errado: as crianças só se riem com e de coisas parvas. Digam muitas vezes cocó, rabo ou chulé a uma criança e ganham um filho que se ri o dia todo. Ora, cocó e chulé não são motes de felicidade, desconfio. Também lhes podem dar todos os presentes, viagens, computadores e telemóveis do mundo que eles sorriem de satisfação, assim como nós, pais, rimos quando estamos sozinhos com um chocolate que devoramos às escondidas no canto da cozinha.

Perguntem-me lá se sou mais feliz depois do chocolate? Não, apenas mais gordachuda. Este indicador de sorrisos é uma bomba atómica educativa. O menino sorri se ganhar jogo, é deixá-lo ganhar; queres gomas ao jantar? Gostas da mamã? Então leva as gomas e dá-me um sorriso. Queres dormir na cama dos pais até aos 12 anos? O menino sorri de orelha a orelha e lá se vai o casamento dos pais pelo cano.

Então como é que sabemos se os nossos filhos são felizes ou não? Não sabemos. É por isso que se diz que isto de ser pai ou mãe é como navegar sem ver a terra: seguimos o vento, temos como bússola o bom senso e só quando avistamos uma ave, percebemos que a felicidade anda por perto. Desconfiamos, vá.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de