Escalar a Economia (VI)

Pedro Reis escreve sobre as necessidades de investimento para dar gás à economia no pós-pandemia.

A economia portuguesa tem, desde há décadas, três grandes desafios (entre outros): assegurar maior eficiência, focar-se na execução e, por fim, ganhar escala. São três parâmetros que pressupõem um ganho consolidado e continuado ao nível da produtividade e da competitividade e que, por sua vez, desembocam na captação de maior e melhor investimento (quer externo quer nacional) bem como num processo de internacionalização mais sólido e logo mais resiliente.

Do muito que haveria para dizer sobre o tema da eficiência e da execução (aspetos aplicáveis quer a um nível atomizado das empresas quer a um nível agregado da esfera pública enquanto responsável última por promover um enquadramento amigo do investimento) retenho-me numa única dimensão de cada um desses primeiros dois fatores para poder desenvolver um pouco mais o terceiro pilar (da escala).

Parece-me crucial que a economia portuguesa consiga capturar crescentemente ganhos visíveis e materiais de eficiência em tudo o que toca a um parâmetro crucial: nível de serviço. Se assegurarmos que as instituições, os processos e acima de tudo as pessoas estão focados em conseguir atingir níveis de serviço de excelência, conseguiremos com essa “revolução” reduzir drasticamente as cargas de burocracia, os custos ocultos e de contexto e as desvantagens competitivas absolutas e relativas. Praticar níveis de serviço exigentes é profundamente indutor de confiança numa organização em termos individuais ou numa economia em termos coletivos.

Parece-me também essencial, num país como Portugal, focarmo-nos essencialmente na (boa) execução. Quando tudo está bem pensado e quando o diagnóstico está bem feito como é o nosso caso, o primeiro desafio a ultrapassar, a “última fronteira” a conquistar é a da (eficiente e eficaz) execução; há um tempo para pensar e há uma hora para executar: executar sem pensar geralmente leva ao desastre, mas pensar sem executar quase sempre não leva a lado nenhum.

Por fim, um dos grandes desafios da economia portuguesa, e das suas empresas em particular, é conseguir que estas ganhem ainda maior escala, que consigam ter ainda mais massa crítica, que atinjam uma dimensão ainda maior.

Apresento de seguida e de forma resumida algumas das principais vantagens de se dar maior escala à nossa economia num mundo globalizado e extremamente competitivo em que nos queremos integrar de forma crescente de modo a capturar o maior valor acrescentado possível de quota de mercado mundial.

Desde logo, quanto maior a escala das empresas maior a sua capacidade para captar capital, e é esse mesmo capital que permite assegurar maior produtividade e maior competitividade às empresas para conquistarem os mercados externos onde estão presentes ou onde desejam entrar.

Ao ganhar escala, desde que obviamente de forma sustentável, a empresa passa a despertar muito maior interesse a potenciais investidores (de indústria ou financeiros) o que, por sua vez, lhe permite acelerar o seu plano de negócios capturando as oportunidades à medida que elas se apresentam no seu ponto ideal e não à medida que os seus recursos lhe permitem.

Quanto maior a escala das empresas maior também a sua capacidade de se desdobrarem em vários mercados e por diversos segmentos em simultâneo, permitindo-lhes assim amortecer ciclos desencontrados, beneficiar de economias de escala e de sinergias, aumentar a sua tolerância ao risco e ao erro e incrementar a sua margem de manobra para encaixar imprevistos.

Quanto maior a escala das empresas maior a sua capacidade em inovar, em investir em I&D, em construir e apostar na sua marca, em antecipar-se às tendências ( apropriando-se da “first mover advantage”), em desenvolver ferramentas e modelos robustos de analytics, em fazer apostas a longo prazo sem descuidar de aspetos imediatos que importa sempre conciliar.

Quanto maior a escala das empresas mais capacidade as mesmas têm de diluir custos fixos por mais serviços sem perder competitividade o que, no mundo atual, pode revelar-se crítico quando os desafios que se colocam a elas para se manterem na “crista da onda” da inovação implicam uma enorme intensidade financeira e tecnológica em várias frentes simultâneas.

Quanto maior a escala das empresas maior a sua capacidade de promover operações de consolidação setorial que tragam maior dinâmica e maior músculo à operação e maior a sua capacidade de escolher os melhores parceiros para desenvolver uma oferta diferenciada de excelência (produtos, processos e soluções).

Quanto maior a escala das empresas maior o seu poder de negociação com os vários stakeholders o que lhes permite não estarem sujeitas a todo o tipo de pressões, de limitações e de esmagamento de condições: numa palavra, quanto maior escala maior independência.

Por fim um aspeto decisivo: quanto maior a escala das empresas, maior a sua capacidade de atrair talento. E o talento é o que verdadeiramente assegura a sustentabilidade das empresas e dos projetos. É compreensível que o talento, ao ter uma natural opção de escolha que lhe dá um maior grau de exigência, opte por escolher as organizações que lhe dão mais capacidade de se desenvolver, de se realizar, de crescer, de voar.

De um ponto de vista mais macro, é também pela escala que as empresas se podem libertar dos constrangimentos de base com que eventualmente se confrontam nos seus mercados internos: ao ganhar escala as empresas “libertam-se” das barreiras “naturais” dos seus mercados domésticos que as limitam na sua busca pela excelência e pela sustentabilidade. É através da escala que as empresas estão verdadeiramente colocadas apenas perante a sua capacidade, sem externalidades, sem limitações de origem e sem travões de circunstância.

De um ponto de vista mais agregado, uma economia com empresas de maior dimensão beneficia da captura saudável de maior valor acrescentado permitindo-lhe assim retirar todos os benefícios do domínio do processo de desenvolvimento, produção e comercialização de determinado bem ou serviço.

Quanto maior escala a economia portuguesa conseguir conquistar mais poderosa a mesma será em termos de qualidade, de independência, de robustez, de solidez, de ambição e de dinâmica das suas empresas o que lhe trará, mais tarde ou mais cedo, maior investimento, mais criação de emprego qualificado e mais desenvolvimento equilibrado.

Assim sendo, todas as políticas e estratégias que promovam o aumento de dimensão das empresas são, por princípio, virtuosas: quer elas promovam o crescimento orgânico ou o crescimento por via de fusões ou aquisições (no mercado doméstico ou no mercado internacional) estarão sempre a assegurar que as empresas ficam mais bem apetrechadas para singrar nos respetivos mercados.

Com maior escala vem, geralmente e ainda, melhor gestão (porque mais profissionalizada), maiores recursos e melhor análise e sentido estratégico. Com maior escala vem também maior capacidade de arrastamento positivo das várias empresas e parceiros que fazem parte dos ecossistemas dessas mesmas empresas, democratizando as vantagens sem desnatar as capacidades.

Promover o ganho de escala das empresas é aliás um desafio que se coloca de forma muito particular à Europa: à medida que os dois grandes blocos geopolíticos e geoestratégicos se afirmam crescentemente e se confrontam infelizmente (EUA e China) e à medida que o domínio de muitas indústrias se joga na desmultiplicação da capacidade de liderança e de desenvolvimento de empresas gigantes (como por exemplo as big tech), apostar no escalar da dimensão das suas empresas torna-se absolutamente crucial para a Europa de forma a manter a sua capacidade de investigação e de inovação e o seu ritmo de crescimento e de desenvolvimento. Sem escala não há voz, sem voz não há autonomia, e sem autonomia não há soberania.

Numa fase em que as economias procuram definir os eixos de crescimento num novo ciclo que se quer iniciar, apostar na escala das suas empresas (através de instrumentos que promovam a sua capitalização, a sua consolidação, a sua qualificação e a sua inovação) é apostar no futuro: até porque ao darmos escala às nossas empresas estamos a injetar escala na nossa economia.

Uma economia com eficiência, execução e escala é o passaporte certo e seguro para um futuro melhor.

Leia aqui os artigos anteriores do mesmo autor:

Proteger a economia (I)

Reinventar a economia (II)

Blindar a economia (III)

Relançar a economia (IV)

Investir na economia (V)

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