Espírito pouco solidário da Europa

Exige-se uma ação forte e coordenada das instituições europeias, com um plano que permita assegurar a proteção das empresas e dos postos de trabalho

O mundo está mergulhado num cenário de gigantesca incerteza quanto ao impacto socioeconómico da pandemia. Depende da sua duração e da capacidade que tivermos de agir, de forma célere e significativa.

Vivemos uma situação excecional - um choque económico que é simultaneamente da oferta e da procura -, o que requer um combate excecional, sob pena da recessão se traduzir numa grave depressão global.

Para o nosso país, o Banco de Portugal projeta para este ano uma quebra do PIB entre cerca de 4% e 6%, dependendo de um cenário mais ou menos adverso, face ao potencial impacto das políticas das autoridades nacionais e europeias. Em qualquer dos cenários, a queda no investimento e nas exportações será na grandeza dos dois dígitos. Também a nível dos dois dígitos voltará a estar a taxa de desemprego.

Por mais boa vontade e empenho dos países europeus, a sua atuação individual será insuficiente para enfrentar esta pandemia, sobretudo naqueles com menor capacidade, como é o caso de Portugal.

Esta é a altura em que a União Europeia deve demonstrar um dos principais valores em que se fundou - o espírito de solidariedade, que está hoje, mais do que nunca, posto à prova.

A conta-gotas, a Europa tem vindo a anunciar algumas medidas positivas, com destaque para a política monetária do BCE, a suspensão das regras orçamentais europeias (cláusula de salvaguarda) e a reprogramação de fundos para prioridades mais emergentes (como a saúde e a manutenção do emprego), mas não é dinheiro novo. Estamos muito longe da celeridade e dos montante desejáveis, no quadro de uma situação de emergência.

Ninguém tem dúvida da necessidade do lançamento de um programa de recuperação da economia europeia para o período pós-crise. Mas antes disso há ainda muito a fazer. Nesta fase, temos de evitar, a todo o custo, uma destruição massiva da capacidade produtiva instalada.

Hoje, cada segundo de atraso conta mais do que nunca. Exige-se uma ação forte e coordenada das instituições europeias, com um plano que permita assegurar uma proteção das empresas, dos postos de trabalho e, consequentemente, do rendimento das famílias, impedindo uma escalada de falências e de desemprego e uma recessão muito profunda.

O brexit terá sido um primeiro “abanão” na integração europeia. Se agora a União Europeia não demonstrar estar à altura, se pouco fizer, estarão em causa os fundamentos da sua existência.

 

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de