Opinião: Luís Miguel Ribeiro

Espírito pouco solidário da Europa

Fotografia: Cesare Abbate/EPA
Fotografia: Cesare Abbate/EPA

Exige-se uma ação forte e coordenada das instituições europeias, com um plano que permita assegurar a proteção das empresas e dos postos de trabalho

O mundo está mergulhado num cenário de gigantesca incerteza quanto ao impacto socioeconómico da pandemia. Depende da sua duração e da capacidade que tivermos de agir, de forma célere e significativa.

Vivemos uma situação excecional – um choque económico que é simultaneamente da oferta e da procura -, o que requer um combate excecional, sob pena da recessão se traduzir numa grave depressão global.

Para o nosso país, o Banco de Portugal projeta para este ano uma quebra do PIB entre cerca de 4% e 6%, dependendo de um cenário mais ou menos adverso, face ao potencial impacto das políticas das autoridades nacionais e europeias. Em qualquer dos cenários, a queda no investimento e nas exportações será na grandeza dos dois dígitos. Também a nível dos dois dígitos voltará a estar a taxa de desemprego.

Por mais boa vontade e empenho dos países europeus, a sua atuação individual será insuficiente para enfrentar esta pandemia, sobretudo naqueles com menor capacidade, como é o caso de Portugal.

Esta é a altura em que a União Europeia deve demonstrar um dos principais valores em que se fundou – o espírito de solidariedade, que está hoje, mais do que nunca, posto à prova.

A conta-gotas, a Europa tem vindo a anunciar algumas medidas positivas, com destaque para a política monetária do BCE, a suspensão das regras orçamentais europeias (cláusula de salvaguarda) e a reprogramação de fundos para prioridades mais emergentes (como a saúde e a manutenção do emprego), mas não é dinheiro novo. Estamos muito longe da celeridade e dos montante desejáveis, no quadro de uma situação de emergência.

Ninguém tem dúvida da necessidade do lançamento de um programa de recuperação da economia europeia para o período pós-crise. Mas antes disso há ainda muito a fazer. Nesta fase, temos de evitar, a todo o custo, uma destruição massiva da capacidade produtiva instalada.

Hoje, cada segundo de atraso conta mais do que nunca. Exige-se uma ação forte e coordenada das instituições europeias, com um plano que permita assegurar uma proteção das empresas, dos postos de trabalho e, consequentemente, do rendimento das famílias, impedindo uma escalada de falências e de desemprego e uma recessão muito profunda.

O brexit terá sido um primeiro “abanão” na integração europeia. Se agora a União Europeia não demonstrar estar à altura, se pouco fizer, estarão em causa os fundamentos da sua existência.

 
Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP), Nazaré da Costa Cabral. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Linhas de crédito anti-covid ainda podem vir a pesar muito nas contas públicas

Fotografia: Fábio Poço/Global Imagens

Apoio a rendas rejeitado devido a “falha” eletrónica

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho. RODRIGO ANTUNES/LUSA

Só 789 empresas mantiveram lay-off simplificado em agosto

Espírito pouco solidário da Europa