Esta é a verdadeira América

O homem que posou no Capitólio em tronco nu, com cornos e pêlos de bisão na cabeça, as cores da bandeira norte-americana pintadas na cara e uma barba de seis meses, é conhecido como o "Xamã QAnon."

A sua personagem bizarra tornou-se presença assídua nos protestos pró-Trump do último ano, empunhando a bandeira QAnon, o grupo extremista que acredita numa seita internacional de pedófilos satânicos chefiada por Hillary Clinton e Oprah Winfrey.

Chama-se Jake Angeli, do Arizona, e é também membro de um grupo de "tribalistas masculinos", que defendem o regresso a uma sociedade violenta em que as mulheres têm de ser caçadas e violadas. Angeli ficou aborrecido no rescaldo do ataque ao Capitólio porque os apologistas do presidente Donald Trump começaram a fazer circular que ele e os seus compinchas de insurreição eram na verdade anti-fascistas disfarçados de apoiantes de Trump. Só mesmo no delírio da direita fanática e auto-embevecida se poderia conceber que militantes de esquerda tentariam parar o processo de certificação de um presidente de esquerda, com a intenção única de tramar os apoiantes do presidente que perdeu as eleições.

A vergonha a que assistimos no Capitólio foi chocante, mas não surpreendente. Era tão previsível que muitos avisaram, com meses de antecedência, que ia haver violência após a vitória de Joe Biden. O que não se esperava é que a polícia do Capitólio capitulasse com facilidade ou até se mostrasse conivente com um ataque que terminou em cinco mortos e a casa da democracia vandalizada. Mas com todas as incertezas que temos sobre os contornos desta invasão, uma coisa é certa: isto não foi um incidente desalinhado.

No rescaldo da violência, o presidente-eleito Joe Biden falou à nação usando palavras fortes e apropriadas, como "insurreição" e "tentativa de sedição." O próximo chefe de Estado disse também que isto foi acção de um pequeno número de extremistas. "As cenas de caos no Capitólio não reflectem a verdadeira América. Não representam quem somos", declarou.

Creio que o presidente-eleito, aqui, está errado. Isto é exactamente o que a América é. A verdadeira América é esta - a que vimos plasmada nos ecrãs da CNN, perante a boca aberta dos comentadores, quando uma multidão de extremistas defendidos pela cor clara da sua pele se lançou em guerrilha contra o Capitólio, numa tentativa de subverter os resultados de uma eleição. Que estes milhares de pessoas tiveram a audácia de achar que podiam ir ali, cercar os legisladores e obrigá-los a subverter uma eleição, está em linha com a sua experiência de vida na América. Que a polícia não os tenha enchido de balas de borracha nem gás lacrimogéneo, como aconteceu com os manifestantes pela justiça racial no verão de 2020, também. E que entre eles estivessem ex-militares, polícias fora de serviço e até legisladores estaduais, também confere.

Esta é a América dos padrões desnivelados, em que uma criança negra se arrisca a ser morta a tiro por ter uma pistola de brincar na mão mas milicianos neo-nazis são escoltados para fora de edifícios federais que ocuparam sem sequer serem identificados. Esta é a América das virgens ofendidas, em que todos aqueles que durante anos acobertaram os horrores da administração Trump se mostraram repentinamente ultrajados com o resultado final. Esta é a América dos empresários invertebrados, que assobiaram para o lado enquanto puderam e na hora final, quando o Titanic já está de estibordo na água, ganham todos espinha em simultâneo.

Esta é também a América da conciliação impossível, um país fragmentado desde que o Sul tentou a secessão da união para manter a escravatura e - pasme-se - não aconteceu absolutamente nada aos traidores. Se alguma coisa a História nos ensinou é que deixar passar crimes para apaziguar as hostes inflamadas não faz nada para as aplacar. Na verdade, estimula-as.

Aqueles que defendem que não deve haver invocação de 25ª Emenda ou novo processo de impeachment para não irritar ainda mais os apoiantes de Trump não perceberam os apoiantes de Trump. Os seus ódios e os seus sonhos de guerra civil são independentes de factos e acções do outro lado da barricada. São imunes à realidade. A empatia faz ricochete neles.

Os crimes devem ser tratados como crimes e a punição deve ser lançada sobre quem a merece. Havendo razões para não destituir e não processar, apaziguar um bando de lunáticos nunca pode ser uma delas.

É bom que se ponha os olhos sobre esta América despida que nos flagelou a consciência na última semana. Amar uma pátria não é ignorar-lhe os defeitos. Na maior experiência democrática do mundo, é preciso reconhecer o que está errado e ver que Trump foi um sintoma, não uma causa.

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