Opinião

Está tudo terrível

Facebook CEO Zuckerberg arrives to testify before a U.S. Senate joint hearing on Capitol Hill in Washington
REUTERS/Leah Millis TPX IMAGES OF THE DAY

Temos um pé no Mundo Invertido neste final de década em que o bizarro se tornou normal. E não me refiro aos assessores de saia

Visões fantásticas de carros autónomos e táxis voadores, cirurgias apoiadas remotamente por 5G, realidade aumentada a transformar profissões, robôs de entregas a substituírem humanos. Nos corredores dos eventos tecnológicos em 2019, como o MWC LA que decorreu na semana passada, fala-se de inteligência artificial, Internet das Coisas e realidades mistas com o entusiasmo genuíno de quem já vê nesgas do futuro. E, no entanto, a sensação que dá é que este é um ano em que está tudo terrível.

Estamos para lá dos memes e do Mercúrio Retrógrado. A polícia espanhola dá cacetada nos manifestantes pela Catalunha, o Reino Unido está no último estertor da derrocada do Brexit, a Rússia e a Turquia abocanham territórios, o Chile convulsa, o processo de impugnação de Donald Trump atira-nos para uma loucura institucional sem precedentes.

A Califórnia, onde muitas das inovações que prometem um futuro brilhante estão a ser desenvolvidas, enfrenta uma temporada apocalíptica de fogos selvagens. A fornecedora de energia PG&E procedeu a um apagão deliberado de electricidade a dois milhões de pessoas no início de Outubro e agora planeia desligar a corrente a mais três milhões, porque o risco de incêndio é tão elevado que qualquer faísca pode levar ao desastre.

Imaginem o que é estar quatro ou cinco dias sem qualquer fonte de energia para evitar o risco de incêndio: parece o guião de um filme de acção. As ordens de evacuação desde Malibu ao Topanga Canyon chegam ao telemóvel em catadupa, porque os fogos estão descontrolados e as autoridades ordenaram que se pegue nas pessoas e animais e se fuja de imediato. Até ao fim-de-semana, os termómetros indicavam 35º a 38º graus no final de Outubro. É uma receita para o inferno.

Do outro lado do país, em Washington, ainda reverbera a inquirição a Mark Zuckerberg, que puxou do desplante do costume para explicar as muitas contradições com que governa o Facebook. Se este é um ano em que parece que está tudo ao contrário, com assessores de saia a provocar taquicardia no Parlamento e influenciadores de calça de ganga a serem recebidos no Palácio de Belém, o império de Zuckerberg está a tornar as coisas infinitamente piores. Dir-se-ia até que tem mão na desgraça.

É certo que a extensão da sua responsabilidade é difícil de avaliar – de quem é a culpa quando um político põe anúncios com mentiras no Facebook? De quem é a culpa quando os utilizadores se deixam levar por qualquer meme mal-enjorcado? A criação de Zuckerberg ultrapassou-o e abriu espaço para fenómenos que não poderíamos prever. O erro é ver que o monstro está a partir tudo e não fazer nada para salvar as porcelanas.

Nos corredores dos eventos tecnológicos em 2019, há um idealismo concentrado que tem razão de existir, porque o potencial do que está a ser desenvolvido para catapultar as sociedades para situações melhores é muito grande. Os países emergentes podem dar um salto tremendo com o 5G, a Internet das Coisas pode ajudar a salvar o planeta tornando a agricultura mais eficiente, a inteligência artificial permitirá descodificar problemas que não estão ao alcance do nosso cérebro.

Mas sucede que há coisas que estão mesmo terríveis. A ciência e a tecnologia não existem numa bolha e há um levantamento populista contra ambas, ainda que as armas utilizadas pelos críticos – smartphones, redes sociais, apps encriptadas, fóruns – se devam a elas. Vivemos tempos históricos neste final de década. Temos um pé no Mundo Invertido. Sempre houve coisas estranhas a acontecer, mas agora vemos, sem compreender, que o bizarro se tornou normal.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

João Cadete de Matos, presidente da Anacom

Fotografia: Vítor Gordo/D.R.

Anacom “considera essencial” redução de preços no acesso à Internet

Outros conteúdos GMG
Está tudo terrível