Opinião

Estratégia, uma comédia romântica

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A estratégia devia ser mais parecida com um filme de ação, onde por norma a missão é acompanhada de um plano.

Tenho vindo a deparar-me com um problema que me apoquenta: há muito pouca obra cinematográfica que sirva de pedagogia à gestão de relações, sobretudo, ao que acontece após aquele grande gesto que, tipicamente, serve de final comovente a qualquer filme romântico (peço ao leitor que não desista já, prometo que vou escrever sobre negócios, e não sobre a minha vida amorosa, o que seria, ainda por cima, entediante).

Na minha perspetiva, a serenata à janela, o encontro no aeroporto e o pedido de casamento ao pôr do sol, tendem a ser bastante similares àquilo que é o processo atual de planeamento estratégico nas organizações. Não acredita?

Comecemos pelo elenco, as personagens são sempre as mesmas: um casal, com amigos que servem como sustento às suas interações e figurantes que vão desenhando a história. Ora, no processo de planeamento estratégico, o elenco também é, por norma, recorrente, juntam-se os administradores, diretores de primeira linha e temos ainda os colaboradores que servem de figurantes.

O guião esse, também pouca inovação acarreta, o (futuro) casal, conhece-se, apaixona-se e surgem diversas situações que colocam em causa o seu relacionamento. Existe o tal momento romântico e the end, viveram felizes para sempre. Quando se define estratégia, o processo acaba por ser parecido, sobretudo o final do filme: não importa as análises internas e externas, as pessoas envolvidas, os workshops e brainstorms realizados, as conclusões são sempre parecidas: “temos de inovar”; “o objetivo é privilegiar a rentabilidade, contendo custos”; “é imperativo diversificar o nosso portfólio de produtos e geografias”; “há que investir na transformação digital”. Palavras bonitas que se traduzem em poucas ações previstas para o futuro: ora lá está, a falta de pedagogia cinematográfica no quadro da gestão de relações aplicada ao que acontece depois do grande momento, em que é apresentado o powerpoint com a estratégia a seguir nos próximos anos.

E, por falar nos próximos anos, há a sequela: casaram e agora vão de férias, mas apareceu aquele(a) ex-namorado(a) que pode colocar tudo em causa. No planeamento estratégico, há algo semelhante. De dois em dois, de três em três, de cinco em cinco anos, lá se passa outra vez pelo mesmo processo, chegando, tipicamente, a conclusões bastante semelhantes e a poucas ações.

Tentando dotar os meus argumentos de algumas evidências, um estudo recente publicado pelo The Economist Intelligence Unit, concluiu que

(i) 59% das empresas apresenta amplas dificuldades em transformar as suas estratégias em execução;

  1. (ii) Em média, as empresas falham em atingir um quinto dos objetivos estratégicos a que se propõem;

    (iii) Metade das organizações assumem que não executar a sua estratégia as coloca numa posição competitiva fragilizada.

O meu conselho? A estratégia devia ser mais parecida com um filme de ação, onde por norma a missão é acompanhada de um plano, mas 90% do filme passa por executar: isto é, planear e refletir sobre estratégia é fundamental, mas promover a sua execução e consequentes mecanismos de aprendizagem e melhoria contínua é a chave do sucesso organizacional.

Importa, por isso, dotar planos estratégicos de programas, projetos e iniciativas, concretas e monitorizáveis, para, desta forma, conseguirmos, finalmente, ‘saltar’ de um enredo romântico para um filme de ação.

Pensar como James Bond, significa colocar a borracha no alcatrão para salvar o mundo. Ainda por cima, o herói tende a ficar com a miúda gira no fim (o que acaba por ser o melhor dos dois mundos).

Partner na Winning Scientific Management e responsável por consultoria em Estratégia e Inovação

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