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Ética não é enfeite de discursos políticos

É preciso tomar decisões e ter coragem política de admitir e de demitir quem não cumpre as regras da ética.

Estes são tempos em que é urgente refletirmos sobre as questões da ética, tal como na crise económica e financeira mundial de 2008 e 2009. A ética não é um conceito esotérico, nem uma abstração da filosofia política, nem um slogan que fica bem para maquilhar discursos dos governantes ou administradores. A falta da ética é sinónimo, quase sempre, de corrupção, de falha de modelos de governance ou até de anarquia por colapso dos sistemas. A falta de ética semeia populismos, revela despreocupação com a Res Publica e pode gerar revoltas.

Um povo ou uma nação sem ética é uma “república das bananas”. É preciso tomar decisões e ter coragem política de admitir e de demitir quem não cumpre as regras da ética. Não se trata de demagogia: as cabeças devem rolar quando alguém que tem de prestar contas aos cidadãos/contribuintes é irresponsável ou anti-ético. Se houver governantes, supervisores ou administradores de bancos que lesaram o Estado ou os contribuintes e pactuaram com atos de corrupção ou de gestão danosa, então devem ser responsabilizados. Depois, não venham dizer que a culpa é dos media e que são vítimas de julgamento em praça pública. Exigir que se cumpra a ética não é demagogia, é democracia.

Esta semana, conhecemos o pedido de exoneração do governador do Banco de Portugal pelo Bloco de Esquerda e com apoio do PCP. A iniciativa tem o mérito de chamar a atenção para o facto de ninguém ser intocável. Apesar de a figura do governador ser quase inamovível, ou seja, só pode ser exonerado perante falha grave, Carlos Costa não deve ficar imune a qualquer investigação e respetivas conclusões, nem deveria reagir a pedir escusa apenas quando é pressionado pelos media.

O pedido de exoneração até poderá ter sido feito cedo de mais, uma vez que a comissão de inquérito ainda está a decorrer, mas, findo o inquérito, aí sim, têm de ser tiradas todas as ilações. Se houver falha grave, não há figuras inamovíveis, independentemente da instituição ou cor partidária.

O pedido de exoneração até poderá ter sido feito cedo demais, uma vez que a comissão de inquérito ainda está a decorrer, mas, findo o inquérito, aí sim, têm de ser tiradas todas as ilações. Se houver falha grave, não há figuras inamovíveis, independentemente da instituição ou cor partidária.

Há muito que é conhecida a tensão entre o governador Carlos Costa e o governo liderado por António Costa. Para alguns analistas, mais políticos do que económicos, a auditoria à Caixa Geral de Depósitos poderá ser a gota de água que faz extravasar o copo onde se tem acomodado desconfortavelmente esta relação.

Por outro lado, é preciso não esquecer que os grandes empréstimos concedidos pela CGD (sem se ter em conta a análise de risco) foram atribuídos durante um governo socialista, neste caso de José Sócrates. A auditoria à Caixa Geral de Depósitos exige a António Costa, mais do que um jogo de cintura para gerir as forças internas do partido do Largo do Rato e dos partidos da esquerda parlamentar, a coragem de praticar a chamada ética republicana. À mulher de César, não basta parecer séria; é preciso sê-lo.

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