Opinião

#EuTambém

Cartaz mostrando Maya Angelou, que escreveu o poema "Still I Rise", durante a Marcha das Mulheres em Los Angeles
Cartaz mostrando Maya Angelou, que escreveu o poema "Still I Rise", durante a Marcha das Mulheres em Los Angeles

Nada pode ser grande a não ser que nos custe alguma coisa

A multidão urrava a cada frase entoada na voz forte e determinada de Viola Davis, que conhecemos de “How to Get Away With Murder” e “Fences”, pelo qual ganhou o Óscar de Melhor Actriz Secundária. Das dezenas de caras conhecidas que apareceram na Marcha das Mulheres em Los Angeles – Natalie Portman, Scarlet Johansson, Eva Longoria, Olivia Wilde, Connie Britton, Ted Danson, Tony Goldwyn, Olivia Munn, Idina Menzel, Andra Day – Viola Davis foi quem deitou a casa abaixo. E mesmo por cima dos aplausos, Davis soube dizer o que falta muitas vezes a estes movimentos: “Não basta usar hashtags e ir a marchas.”

É preciso fazer acontecer, porque o progresso não é inevitável. A ideia romântica de que caminhamos inexoravelmente para tempos mais evoluídos, como se a progressão das sociedades fosse natural, faleceu à porta da Casa Branca no dia em que Barack Obama saiu e apagou as luzes.

“No fim do dia, só caminhamos em frente quando não nos custa nada”, criticou Viola Davis, que não poupou ninguém à realidade crua que muitas mulheres enfrentam – da violência sexual ao tráfico humano. “Nada pode ser grande a não ser que nos custe alguma coisa.

Foi esta a frase que sublinhei nas minhas notas, porque tantas vezes nos esquecemos disto. Embarca-se nos movimentos pondo umas hashtags no Twitter e no Facebook, partilhando uns artigos, sendo activistas das redes sociais e campeões do Instagram. Isso, na verdade, não custa muito. É fácil fazê-lo quando o barco já está em movimento. #EuTambém e dormimos melhor. As hashtags e os botões de partilha dão-nos a sensação de estarmos a fazer qualquer coisa de concreto, quando nada disso é suficiente se não se traduzir em mudanças reais no dia-a-dia.

“Falo hoje aqui não apenas por mim, mas também por todas as mulheres que ainda estão em silêncio”, disse Davis, “que não têm rosto e não vêem imagens na comunicação social que lhes dêem um sentido de valor suficiente para quebrarem o silêncio.” As palavras poderosas de Davis ecoaram nos ouvidos de uma massa impressionante de gente, 700 mil pessoas que inundaram as ruas da baixa da cidade na maior marcha da América. Essas pessoas ouviram as histórias de assédio e medo de Natalie Portman, que aos 12 anos recebeu uma carta de um fã que sonhava violá-la. De Scarlett Johansson, que aguentou situações de abuso de poder convencendo-se que era assim que tinha de ser. De Olivia Wilde, que tal como outros oradores disse às “mulheres brancas” que tinham de se levantar e fazer alguma coisa, porque não foram as afro-americanas que nos meteram nesta embrulhada.

A Marcha das Mulheres não foi, ao contrário do que muitos pensam, simplesmente um protesto anti-Trump. Eva Longoria disse-o claramente: isto vai muito além de qualquer nome que ocupe a Casa Branca. Trump pode ter sido o catalisador, mas não é o foco. Não é sequer a raiz do problema. Trata-se de uma revolução social que pretende resolver, de uma vez por todas, a iniquidade histórica que afastou as mulheres, como um todo, de uma situação de verdadeira igualdade de oportunidades.

Vai custar alguma coisa mais que umas hashtags. Nunca houve revoluções sem resistência nem protestos que foram bem recebidos pelo outro lado. Quantas desobediências civis foram consideradas aceitáveis? Quantas vezes basta pedir qualquer coisa para a obter? Não quero dizer que os movimentos propagados via redes sociais são inúteis – sem estes levantamentos de indignação talvez não estivéssemos aqui a discutir coisa alguma. O argumento é que isso não basta. E confundir assédio e abuso de poder com piropos e sedução falhada é a última coisa de que precisamos neste momento (desculpa, Catherine Deneuve, mas acho que ficaste perdida na tradução).

#EuTambém é levantar a voz quando o chefe faz comentários de natureza sexual sobre a miúda da recepção. #TimesUp é dizer à besta do tio carcomido que não pode apertar as carnes da sobrinha e dizer-lhe que ela está crescida. É não aceitar que numa entrevista de emprego a obriguem a assinar um documento em que se compromete a não engravidar. Melhor: é recusar pedir essa assinatura a uma potencial funcionária. É deixar-se de comentários estúpidos no Facebook a chamar mulheres de galdérias por tudo e por nada, perder a mania de culpar as vítimas, não cair no erro de dizer que todos os homens são terríveis ou que todas as mulheres são interesseiras. #EuTambém, #MeToo, #TimesUp e todas as hashtags que surgirem são o ponto de partida para uma discussão maior e uma mudança efectiva. Seria bom que não as deixássemos sequestrar por histórias falsificadas nem argumentos falaciosos.

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