Evolução na continuidade

Em 2004, aquando do alargamento da UE, o PIB per capita português, em termos de paridade de poder de compra, era de 75% do PIB da nascente Europa a 28. Atrás de nós estavam os 13 países do alargamento.

Nestes 16 anos até 2020, a posição relativa de Portugal deteriorou-se, todos cresceram a um ritmo muito superior a Portugal e vários deles foram-nos mesmo ultrapassando.
Mero exemplo, sete desses países aproximaram-se da média europeia em mais de 20 pontos percentuais e quatro em mais de 10 pontos, enquanto o nosso PIB p. c. estagnou, apresentando uma melhoria residual de 2 pontos, para 77% da média.
Mantendo-se o ritmo, seremos brevemente ultrapassados pela Polónia, que passou de 51% para 76% da média europeia, praticamente igualando Portugal, e pela Hungria que passou de 63% para 74%, já muito perto de nós.

Revelador é que os países do alargamento seguiram políticas públicas muito distintas de Portugal, bem evidentes nos indicadores de 2020 da carga fiscal, bastante mais baixa que a portuguesa, e da dívida pública, que apresenta um valor médio de 60% do PIB, menos de metade dos 134% de Portugal, com apenas quatro países a ultrapassar aquela média.
Tal significa que todos eles, os que já nos ultrapassaram ou os que se vão aproximando rejeitaram políticas de endividamento excessivo e de cargas fiscais inibidoras da criação de riqueza e emprego, optando por políticas públicas amigas do crescimento, que lhes trouxeram uma evolução económica notável.

Por cá, persistiu-se no desnorte de considerar a despesa pública como motor do crescimento, serviço a corporações instaladas transvestido de um keynesianismo sem tempo, nem modo, e assim com uma afetação de recursos errada, gastos correntes em detrimento do investimento, para mais focado este em bens não transacionáveis, ampliando o desacerto, e esquecendo políticas de apoio às exportações e à renovação do tecido produtivo. Políticas que explicam a estagnação económica, a bancarrota de 2011 e os atuais recordes da dívida pública e da carga fiscal.

O PRR, ao insistir no veneno dessas políticas, chamado já a cobrir anunciados pacotes de despesa corrente, logo permanente, e contemplando maioritariamente o apetite do Estado, não poderá ser nunca fator de mudança, apenas evolução na continuidade. E mais uma oportunidade perdida.

Economista

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