Opinião

Évora, Alverca e um avião caído na Etiópia

Os Boeing 737 MAX numa unidade da compnhia em Washington. REUTERS/David Ryder/File Photo
Os Boeing 737 MAX numa unidade da compnhia em Washington. REUTERS/David Ryder/File Photo

Como portugueses, temos razões para estar preocupados, não só como potenciais passageiros mas também como país ligado ao maior fabricante do mundo

O que têm em comum a Etiópia e Portugal? Um marca de aviões: a Boeing.

O espaço aéreo europeu, incluindo o de Portugal, fechou-se ao modelo Boeing 737 Max 8, o mesmo da Ethiopian Airlines que caiu há três dias provocando a morte a 157 pessoas. Precisamente a mesma marca de aviões que tem uma parceria com a Embraer, acionista principal das fábricas em Évora e da OGMA em Alverca.

Como portugueses, temos razões para estar preocupados, não só como potenciais passageiros mas também como país que indiretamente está ligado ao maior fabricante de aviões do mundo, a viver uma forte crise provocada por esta catástrofe. Os trabalhadores de Évora e de Alverca, principalmente, estão preocupados e atentos às investigações.

As ações da Boeing caíram a pique nos últimos três dias e a qualidade, a confiança e a reputação da empresa estão em causa devido ao acidente aéreo.

As dúvidas sobre a fiabilidade do 737 Max 8 colocam a Boeing no centro de um autêntico furacão. Com mais de 5000 aviões 737 Max encomendados, metade deles da série Max 8, a Boeing não só se preparava para fazer frente ao concorrente A320 Neo da Airbus e a um novo modelo que estará a ser fabricado na China, como previa produzir 57 unidades desta aeronave a cada mês e obter uma receita extra de 30 mil milhões de euros por ano.

Agora, nuvens negras pairam sobre a Boeing. Na Ásia, por exemplo, quase uma centena de aviões deste modelo estão impedidos de voar. Enquanto se apura se houve ou não uma eventual falha estrutural do Boeing, todos os cuidados são poucos e a China mandou parar os 737 Max.

O primeiro modelo foi entregue a Pequim a 15 de dezembro último. Já não são poucos os que sobrevoam aqueles céus: 96 aparelhos de 13 companhias de aviação chinesas que vão ficar quietinhos em terra até que se esclareça o que realmente se passou. Enquanto isso, na Bolsa e na reputação da empresa, os impactos negativos vão acumular-se ainda mais. Até porque este modelo já tinha estado envolvido noutro acidente mortífero em outubro de 2018, na Indonésia. Por isso a cautela é mesmo a melhor amiga.

Por muito sofisticada que seja uma máquina, nem sempre a tecnologia explica ou resolve tudo e nem sempre dispensa os pilotos, como, aliás, já se discute e antecipa no futuro da aviação. Até Donald Trump sabe isso e escreveu-o nesta semana no Twitter. Precisamos de boa tecnologia e de bons pilotos em simultâneo e não como uma alternativa.

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