Opinião

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Os novos programas de inteligência artificial pensam de uma forma que nenhum humano pensou antes: eles são criativos.

Desde que inventámos máquinas que guardam informação e a usam para tomar decisões que tentamos ensiná-las a ser inteligentes. A forma como o fazemos tem mudado muito e ensina-nos o que é verdadeiramente ser inteligente.

Uma primeira abordagem à inteligência foca-se na capacidade de fazer ligações lógicas. Os famosos testes do QI avaliam isso. A lógica e a matemática dão um conjunto de regras que podem ser combinadas de formas diferentes para chegar a conclusões. A vantagem desta forma de aprendizagem é a sua versatilidade: partindo de alguns princípios simples pode-se construir uma infinidade de belos castelos. A sua desvantagem é que mesmo num simples jogo, como o xadrez, uma estratégia vencedora é extraordinariamente complexa. Dizê-la em voz alta em termos de princípios lógicos demoraria mais tempo do que aquele que temos na Terra. Nos humanos, os génios na aplicação da lógica, que ganham olimpíadas da matemática, raramente são super bem sucedidos na sua vida profissional.

Uma segunda abordagem baseia-se na memória. A capacidade de reter imensa informação e depois aplicá-la a novas situações foi durante séculos treinada pelo sistema de ensino. O seu apogeu nos computadores foi o Deep Blue, que em 1997 se tornou o primeiro computador a derrotar o campeão mundial do xadrez. Os seus programadores ensinaram-no colocando na sua gigantesca memória milhões de jogos da história do xadrez. A inteligência do Deep Blue era reconhecer no tabuleiro que a posição era semelhante à de um jogo qualquer de há décadas, e seguir a estratégia que na altura levou à vitoria. O Deep Blue era esperto copiando a experiência de milhares de jogadores humanos. Tal como os marrões na vida real, ele era aborrecido.

A última década foi dominada por uma terceira abordagem. A estratégia é tentar algo e ver se tem sucesso. Sem saber nada do passado, e sem tentar teorizar princípios gerais, experimentar e logo se vê. De cada vez que falha, voltar atrás uns passos e experimentar algo diferente. As primeiras centenas de experiências levam todas a fracassos ridículos. Ao fim de uns milhares, já se joga de forma decente. Ao fim de milhões, o programa AlphaZero é hoje o melhor jogador de xadrez do mundo. Ele aprende da mesma forma que um bebé parece aprender a andar: caindo muitas vezes, mas persistindo com a tenacidade de um computador, e acabando mais rápido que o Usain Bolt.

O Youtube tem muitos vídeos em que grão-mestres do xadrez analisam as recentes vitórias arrasadoras do AlphaBlue contra o Stockfish (um memorizador como o Deep Blue). Com o meu conhecimento limitado de xadrez, perdi horas deliciado a vê-los. A sensação foi parecida com a que se tem quando se aprende música tradicionalmente, usando lógica e memória, e depois se assiste a uma boa ópera clássica e se fica maravilhado com a originalidade do compositor. Os novos programas de inteligência artificial pensam de uma forma que nenhum humano pensou antes: eles são criativos.

Professor de Economia na London School of Economics

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