Opinião

Falhar em preparar-se é preparar-se para falhar

João Duarte, professor da Nova SBE
João Duarte, professor da Nova SBE

Chegou a hora de planear de forma cuidadosa a reabertura da economia. Se pensarmos na economia como a água a correr, e na nossa capacidade do sistema de saúde como um balde, temos de aprender a abrir a torneira para que a água corra, mas sem que o balde transborde. Nada trará mais confiança aos portugueses do que sabermos que temos um plano A, um plano B e que, talvez ainda mais importante que isso, temos uma equipa de elite, com provas dadas, para executar o plano.

As notícias recentes que temos recebido sobre o estado de saúde em Portugal no combate à Covid-19 são animadoras: não só nos desviámos da maioria das balas, como saímos mais fortes com maior capacidade hospitalar e de resposta para as que ainda estão por vir. Tudo isto, direta e indiretamente, nos leva a crer que a hora da reabertura da economia aproxima-se. Esta segunda batalha na guerra contra a Covid-19 é talvez ainda mais relevante de ser ganha do que a primeira batalha. Se perdermos esta segunda batalha, perdemos a guerra. A economia, que está intimamente ligada também à saúde pública, provavelmente não sobreviverá a uma nova quarentena prolongada. Portanto, a nossa hora mais negra está a aproximar-se e não podemos falhar.

Para vencer é fundamental uma boa preparação. Segundo a célebre frase de Benjamin Franklin, que aqui traduzo para português, “falhar em preparar-se, é preparar-se para falhar”. Nesta fase de preparação é, e foi, uma boa ideia ouvir a opinião de especialistas das diferentes áreas, nomeadamente de epidemiologia e de economia. No entanto, parece-me que é necessário e relevante ir mais a fundo. É imprescindível colocar estes especialistas em diálogo através da formação de uma equipa multidisciplinar. Só assim poderemos criar planos de reabertura que tenham por base análises rigorosas que retratem os efeitos simultâneos da reabertura de cada sector na economia e na evolução da saúde pública. Na Itália, por exemplo, no passado dia 14 de abril foi anunciada uma equipa nestes moldes liderada Vittorio Colao, ex-CEO da Vodafone.

Em Portugal, na minha opinião, era sobretudo importante reunir economistas especialistas na área de saúde, macroeconomia, organização industrial e de input-output com epidemiologistas. Esta equipa poderia fornecer respostas para perguntas essenciais como: Quais são os sectores que têm um baixo risco de transmissão, mas uma elevada relevância económica? Quais as métricas na saúde e na economia que devem ser monitorizadas? Que critérios sob essas métricas devem ser adotados para definir o grau de abertura da economia a cada instante? Isto é, qual é o número de casos confirmados (e levando em conta a incerteza sobre o verdadeiro número de infetados) que nos deve levar a ligar um alerta, considerar dar um passo atrás, e fazer diminuir a abertura da economia. Caso cheguemos a esse ponto, uma pergunta igualmente importante surgirá: qual o setor que deve ser o primeiro a ter de fechar? As respostas a todas estas perguntas são essenciais para evitarmos um novo pânico que leve novamente ao encerramento quase que total da economia.

Vale ressaltar que se chegarmos a este cenário catastrófico, mesmo que não seja o governo a impor um isolamento social obrigatório, o medo tratará de o impor. Se pensarmos na economia como a água a correr, e na nossa capacidade do sistema de saúde como um balde, temos de aprender a abrir a torneira para que a água corra, mas sem que o balde transborde. E isto tem de ser feito de maneira eficiente sem estar constantemente a abrir e fechar a torneira. Seremos vitoriosos, nesta segunda fase, se conseguirmos manter o maior volume de água possível a correr sem que o balde transborde.

O governo tem vindo a reforçar, e bem, a necessidade de haver confiança para que a economia possa recuperar. A meu ver, neste momento nada trará mais confiança do que sabermos que temos um plano A, um plano B e que, talvez ainda mais importante do que isso, temos uma equipa de elite, com provas dadas, para executar o plano.

João Duarte é professor auxiliar de Macroeconomia na Nova SBE

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
O ministro de Estado e das Finanças, João Leão, acompanhado pela ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, momentos antes de falar aos jornalistas no final da reunião do Conselho de Ministros, no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, 3 de setembro de 2020. MÁRIO CRUZ/POOL/LUSA

Défice público chega a 6,1 mil milhões em agosto, mas suaviza face a julho

Fotografia: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

Sinistros automóveis sem seguro custaram 4,7 milhões

Bosch testes rápidos

DGS aprova testes rápidos à covid da Bosch. Primeiro evento é a Volta a Portugal

Falhar em preparar-se é preparar-se para falhar