Falta de mão-de-obra ou salários indecentes

"Os empregadores não conseguem encontrar trabalhadores?". "Paguem-lhe mais". Foi a ajuda de Joe Biden a quem não estava a ver a solução.

É uma queixa recorrente, quase estrutural, de muitos empresários nos países desenvolvidos: não há pessoas suficientes dispostas a preencher as vagas de trabalho das empresas.

O fenómeno não atinge apenas setores intensivos em mão-de-obra dita mais barata, mas também já afeta em larga escala os negócios de maior valor acrescentado, tecnológicos. Há falta de camareiros de hotel, empregados de mesa e vendedores de pronto-a-vestir, mas também de engenheiros qualificados, gestores com experiência, médicos e enfermeiros. Há falta de pessoas, dizem.

Mas há mesmo ou estaremos perante um problema de encontro entre a procura (empresas) e a oferta (trabalhadores)? Estarão os salários em conformidade ou há um problema grave de rigidez motivado pelas empresas que alegam custos acrescidos, burocracia, endividamento, energia?

A relação clássica na teoria económica diz-nos que quando o desemprego está muito elevado, os salários praticados tendem a ser menores, a ajustar em baixa. A procura (medida pelo número de lugares disponíveis nas empresas) é inferior à oferta (de força de trabalho por parte das pessoas disponíveis para trabalhar).

Isto é, quando há muita oferta, o preço de equilíbrio (o salário) tende a descer para ir ao encontro dessa procura mais contida. Os desempregados competem entre si por um emprego, ganha o que oferecer menos. Estes são os mais competitivos, diz a teoria.

Ora, com as sucessivas crises desde o início do século, a relação entre desemprego e salários tem vindo a sofrer mutações profundas. Hoje, com quase dois anos volvidos de pandemia, o mercado de trabalho alterou-se.

Os apoios públicos evitaram um cenário que poderia ser dantesco, de crise social sem retorno, houve como um bypass no desemprego em massa. Atualmente, as taxas de desemprego, com algumas exceções, são efetivamente baixas, nalguns casos até estão já em linha ou abaixo dos níveis pré-pandemia.

Então, é aqui que nos encontramos. Há emprego, a maioria dos ativos estão ocupados. Mas a que preço?

Para muitos economistas e políticos, o nó górdio da questão está no preço que as empresas estão dispostas a pagar para atrair pessoas.

No caso dos "talentos", a questão começa a ser inquietante. Muitos países - o caso de Portugal, por exemplo - estão a tentar aplicar bálsamos de competitividade para atrair interessados. Hubs tecnológicos, descontos fiscais, verbas apetecíveis do Plano de Recuperação e Resiliência, para convencer o pessoal a assentar. Mas fica por resolver o essencial.

A retoma está em curso (em Portugal, o governo diz que é "pujante"), as promessas são bastante promissoras, mas os salários parecem que não ajustam para cima.

As condições de contexto específicas (provisionadas por algum poder público) podem estar a disfarçar essa inércia negocial, colmatando o vazio nos ordenados. Pode haver mesmo um género de transferência de custos do privado para o público, nessa aceção.

Mas isto, só assim, não é um problema em si. O problema real é que há talentos e outros menos talentosos, de acordo com esta escala de valores, que residem nas economias em causa. É, metaforicamente, uma prisão de preços. Há retoma pujante nos salários reais, no poder de compra, no bem estar? Não há.

O custo da habitação (um problema agudo, sobretudo para os trabalhadores mais jovens e deslocados das suas terras de origem), os custos de transporte (porque muitas empresas se deslocaram dos centros para periferias de perfil automobilizado e porque muitas periferias servem as empresas bem localizadas nos centros), as fracas regalias e os contratos de trabalho que oferecem remunerações altamente fragmentadas e onde as componentes variáveis são enormes, como que repelem o ensejo político de mobilidade laboral e social. Precariedade on the move.

Resta-nos os salários decentes e próprios de economias desenvolvidas.

Mais imigrantes, mas a que preço?

Recentemente, Gonçalo Moura Martins, o presidente executivo da Mota-Engil, uma das maiores construtoras civis de Portugal (e da península ibérica) disse, citado pela Lusa, que estava ainda mais preocupado do que estava antes com "o problema da falta de mão-de-obra com que Portugal e muitos outros países europeus se debatem". Pediu, como já tinha pedido, "medidas" do governo, "uma resposta estrutural".

"Há défice de mão-de-obra" a que se deveria responder de forma estrutural com recurso a políticas de "imigração". Para o CEO, este défice é "o principal problema que o mercado europeu, em geral, e o português, em particular, enfrentam".

Não é preciso ser economista para perceber qual o ponto de equilíbrio salarial que vai na mente do CEO. Imigrantes, aquele conjunto da população trabalhadora conhecida globalmente pelo seu alto poder negocial em termos de condições laborais e salariais?

Imigrantes aos milhares, vindos de todo o lado, ao arrepio da fome, dos salários miseráveis, à procura de uma vida melhor, para ter uma casa, conforto e dar aos filhos uma educação digna, por exemplo?

Mas a maioria dos imigrantes serventes para as construtoras civis e as explorações frutícolas no Alentejo, convenhamos, não são poderosos, nunca foram, muito menos agora.

Há défice de mão-de-obra, sobretudo se for barata e desesperada. Faltam braços competitivos no preço, se quisermos ser cínicos.

Mas, cinismo à parte, estamos a falar em perpetuar a miséria prevalecente na construção, nos restaurantes, nas estufas de frutos vermelhos desta vida.

As narrativas de muitos chefes executivos de hoje refletem as políticas velhas de sempre, há décadas a nivelar por baixo. Poupar nos custos ou pior quando o trabalho representa, de facto, investimento. Um fator produtivo.

Governo descola

Claro que os decisores políticos tentam ao máximo descolar-se deste discurso. Pedro Siza Vieira, o ainda ministro da Economia de Portugal (putativamente, o braço direito de António Costa, ainda primeiro-ministro), afirma que "a economia portuguesa está toda com dificuldades de contratação da mão-de-obra de que necessita", apesar do "momento muito pujante".

"Temos níveis de desemprego dos mais baixos de sempre, a taxa de subutilização do trabalho é a mais baixa também e nunca tivemos tantas pessoas a trabalhar em Portugal. Isso já está a determinar também um aumento de salários."

Para o governante é lógico que é preciso agora "ter propostas interessantes para os portugueses que partiram e que neste momento estão a beneficiar outros países europeus e mundiais com o seu trabalho; e saber acolher pessoas que venham de outros lados. "Um esforço para atrair pessoas". Nacional, neste caso.

Como referido, o nó górdio dos salários indecentes, abaixo do valor digno das horas de trabalho e de saber, não é só nacional. Nem europeu. Em junho, o Presidente dos Estados Unidos falou disso. Fê-lo como o bom aluno que sopra a resolução matemática do problema ao colega de turma bloqueado num exame decisivo.

"Os empregadores não conseguem encontrar trabalhadores?". "Paguem mais às pessoas", soprou Joe Biden. "As empresas têm de começar a competir entre elas e pagar aos que trabalham com afinco um salário decente", afirmou. E, no final, um sorriso.

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