crónicas na corda bamba

Famílias e preconceitos

Catarina Beato. Fotografia: Vitorino Coragem
Catarina Beato. Fotografia: Vitorino Coragem

É também preciso que os preconceitos terminem, que não julguemos, que não tenhamos medos nem vergonhas.

Quando publiquei a crónica da semana passada recebi um comentário que dizia: “a Catarina já tem dois filhos de pais diferentes, não devia ter mais nenhum”.

Li várias vezes e, na verdade, a expressão “já tem dois filhos de pais diferentes” soa bastante mal. Assumo: eu também já tive vergonha de dizer que tenho dois filhos de pais diferentes.

Quando fui mãe do Gonçalo e o projeto de vida com o pai dele não resultou pensei que nunca seria capaz de ter outro filho. Apesar de a nossa relação sempre ter sido pacífica — até quando terminou — e apesar de sermos os melhores amigos, a ideia de ter outro filho, de outro pai, fazia-me impressão.

Passaram muitos anos até ter ficado grávida do meu filho pequeno. Apesar do contexto não ser o mais fácil, apesar de todas as dúvidas, foi uma decisão consciente e muito, muito, muito feliz.

O Gonçalo não tolera que digam que tem um “meio irmão”, zanga-se mesmo. Os meus filhos são irmãos por inteiro apesar de terem pais diferentes. No dia da sua festa de anos, o Gonçalo teve consigo os seus dois irmãos, da parte da mãe e da parte do pai. Não há ligação de sangue entre estes dois meninos, não crescerão juntos, mas terão contacto, saberão quem são, serão irmãos do Gonçalo na plenitude que escolherem para a sua relação.

Se gosto de dizer que tenho filhos de pais diferentes? Assim, até parece mal, com os preconceitos a fazerem soar buzinas estridentes na minha cabeça. Sim, tenho dois filhos, cada um tem o seu pai. E são uns sortudos por terem, cada um, o melhor pai do mundo e o pai do irmão que também gosta deles.

Podem vir as leis que permitem novas famílias, novas formas de ser mãe e pai, com a justiça urgente de que ter filhos não é sangue, é criar com amor. Mas é também preciso que os preconceitos terminem, que não julguemos, que não tenhamos medos nem vergonhas.

Casei com um homem que não é nenhum dos pais dos meus filhos. Casei com um homem que ama os meus filhos, mas não é pai deles. São uns sortudos porque têm uma família cada vez maior, cheia de ramificações que formam um ninho gigante, ou uma rede para o trapézio da vida quando precisarem dela.

Se um dia tiver um terceiro filho, de um terceiro pai, serei apenas a mulher mais feliz do mundo, e eles apenas irmãos.

Escritora e autora do blog Dias de Uma Princesa

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