Opinião

Fazer bem as contas

Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens
Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens

Imagino que Centeno terá pesadelos ao ouvir os seus parceiros transformar em poupança tudo o que, por eles, deixariam de pagar aos privados

Um amigo meu tem uma pequena quinta. A dada altura, meteu-se-lhe na cabeça ser autónomo no que a fruta e vegetais diz respeito. Fez os investimentos adequados e passou a dedicar bastante mais atenção à sua “nova filha”, como lhe chamava. Uns tempos passados, encontrei-o entusiasmado: estava a colher os primeiros frutos. Quando, passados um ou dois anos, o reencontrei e lhe perguntei pela “filha”, respondeu-me com um desanimado encolher de ombros. A fruta era boa, os vegetais deliciosos. Contas feitas, porém, eram as laranjas e couves mais caras do mundo, dizia num hiperbólico desalento. “O dinheiro não é tudo”, ensaiei. “Sempre te ocupa. É saudável”, acrescentei. Anuiu, pouco efusivo. Uns meses depois, cruzámo-nos de novo. As despesas não paravam. Sabia que as podia pagar. Ainda assim, ousei sugerir que desse a quinta à exploração. “Estás maluco?!”. Lembrei-lhe que era uma questão de contas: mesmo que cedesse gratuitamente a exploração, talvez poupasse dinheiro. Bem sei que teria de pagar frutos e vegetais e que perdia a parte lúdica, mas se estava a ter tanto prejuízo… Renitente, resistiu. Um destes dias, encontrei-o mais alegre: recebia algumas frutas e vegetais da própria quinta, pagava o resto e o que, ainda assim, poupava dava-lhe para fazer uns passeios que adiara.

Lembrei-me desta história a propósito de algumas proclamações feitas sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e os hospitais privados. Não sei qual é mais eficiente mas imagino que Centeno terá pesadelos ao ouvir os seus parceiros, por ignorância ou cegueira ideológica, transformar em poupança tudo o que, por eles, deixariam de pagar aos privados. A não ser que levem a estigmatização ao ponto de acharem que quem foi ao privado não merece ser tratado, a sua eventual transferência para o SNS implicará, como é óbvio, custos.

Por mais políticas que sejam as opções sobre o SNS, é preciso avaliar o custo da “quinta”. Não é só matéria de contas, mas as contas, bem-feitas, fazem parte da equação. Por respeito por quem paga!

 

Alberto Castro

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