Filipe teve sorte

Filipe Ferreira, um youtuber de Goiás, filmava no último sábado manobras de bicicleta para depois publicar na rede, quando foi abordado por dois polícias, um deles especialmente truculento.

Sem motivo, o agente saiu do carro, gritou uns jargões que lhe ensinaram na academia ou viu nos filmes, apontou a arma a Ferreira, que só teve tempo de perguntar a razão daquela violência antes de ser algemado.

Não é preciso ser psicanalista profissional para captar o trauma daquele agente, agarrado a um símbolo fálico, aos gritos com um inocente.

Também não é preciso ser um politólogo profissional para adivinhar em quem ele votou no fatídico dia 28 de outubro de 2018.

E o leitor não precisa ter superiores poderes de dedução para adivinhar aquilo que não foi dito até aqui: a cor da pele do youtuber.

Filipe Ferreira, no entanto, teve a sorte de ter o telemóvel a gravar toda a cena.

Outros, negros como ele, não tiveram a mesma sorte: a Condege, entidade que reúne defensores públicos de todo o Brasil, estima, em estudo divulgado pela Globo em fevereiro, que 83% dos injustamente presos no país são negros.

Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, entretanto, atribui as maiores causas da prisão de inocentes a reconhecimentos fora da lei e à identificação incorreta por meio de documentos.

Exemplos: Tiago Gomes, 27 anos, residente na Baixada Fluminense, foi preso ao ajudar a rebocar um carro que não sabia ter sido roubado. Mesmo depois de absolvido, a foto dele continuou a constar de um álbum de criminosos para reconhecimento.

De então para cá, já foi preso uma, duas, três... oito (!) vezes como responsável por crimes de uma quadrilha em cidades onde provou nunca ter estado - "a vítima chega à delegacia, aponta para a minha foto e a polícia vai lá e prende-me, eu até perguntei para a doutora [defensora]: 'Isso não vai acabar mais nunca?'", lamentou-se nas páginas do Folha. Filipe teve, de facto, sorte.

Outro exemplo: Pietro e Carlos moram em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O primeiro já fez 24 anos, o segundo vai a caminho dos 23. Ambos medem 1,74 metros.

No dia 27 de fevereiro de 2018, saíram de uma festa e dirigiam-se para as suas casas quando foram abordados pela polícia. "Onde está o carro, onde está a bolsa?", gritou um dos agentes.

Atingido por socos no peito, Carlos, e joelhadas, Pietro, os dois rapazes foram levados para a delegacia. "Só queriam que confessássemos, mas nós nem sabíamos o que confessar", disse Carlos, ao jornal Metrópoles.

Antes da abordagem, o polícia fotografara a dupla e enviara a foto por WhatsApp a outro agente que se encontrava ao lado da vítima do furto do carro e da bolsa. Esta identificou-os como os criminosos.

Um perito provou depois que os dois assaltantes, gravados por uma câmara de segurança, tinham 1,88 metros de altura (ou 1,85, no mínimo, tendo em conta a margem de erro), ainda assim, um palmo a mais do que Pietro e Carlos. Mas os dois passaram 210 longos dias na prisão. Filipe teve, mesmo, muita sorte.

E se considerarmos o caso de Heberson, inocentado da acusação de abuso sexual só após dois anos na prisão, é inimaginável a sorte de Filipe. Heberson hoje até pode estar em liberdade, mas contraiu HIV na prisão, depois de ter sido violado 60 vezes por culpa de um erro judicial.

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