Filmado em Portugal

Ao contrário de outros mercados europeus, como a Roménia, Portugal não se promove como um sítio mais barato para fazer produções, e isso é bom.

O voo entre São Francisco e Lisboa demora 10 horas e introduz os norte-americanos à Califórnia da Europa. A oeste da capital, as paisagens intactas dos Açores, a norte as montanhas pitorescas, no interior as planícies e as aldeias quase abandonadas. Os caminhos de Portugal fazem-se depressa e o horizonte muda constantemente, o que é sempre fascínio garantido para quem visita o país.

É também uma das qualidades com que a Portugal Film Commission espera poder atrair produtores norte-americanos interessados nesta imensa tela onde a luz é rica e o sol brilha (quase) sempre.

A comissão, oficialmente constituída em Junho, esteve em Los Angeles para promover Portugal como sítio ideal para a próxima grande produção de Hollywood. O espaço montado no American Film Market, um evento anual onde os manda-chuvas do cinema e da televisão se encontram para falar de negócios, tinha em destaque a tremenda variedade de cenários do país e os instrumentos financeiros criados para tornar a decisão irresistível.

Uma das assinaturas da campanha que a Film Commission tem levado a todos os cantos do mundo, e que foi criada no ano passado pelo ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), é precisamente “Can’t skip Portugal”. Fiquem a saber que Portugal é incontornável, meus caros, e que as riquezas do país que está na moda deixaram de estar escondidas.

O verde dos Açores. Os palácios de Sintra. As igrejas talhadas a ouro. A imortalidade histórica de uma nação valente de que ninguém falava há alguns anos e que agora é a coqueluche das revistas de turismo. Ao contrário de outros mercados europeus, como a Roménia e a Polónia, Portugal não se promove como um sítio mais barato para fazer produções, e isso é bom.

Há poucas coisas tão poderosas no mercado norte-americano como o marketing de confiança. “Fake it till you make it” não é apenas um conselho que serve para os aspirantes a influenciadores e estrelas de filmes Lifetime, é uma componente fundamental dos negócios financiados deste lado do Atlântico. A substância interessa, sim, mas raramente alguém chega a analisá-la se a camada de fora for inadequada.

O potencial de Portugal como destino de filmagens é similar à qualidade dos seus vinhos ou azeite: muito superior ao produto do vizinho, mas com muito menor fama e visibilidade. Mudar isso é um trabalho moroso, picuinhas, tarefeiro, que implica a perseverança mesmo quando parece que não está a funcionar. Por isso, mais importante que o bónus de 30% que a Film Commission adianta às produções que escolham Portugal para filmar, é a continuidade deste esforço de construção de imagem a que estivemos alheios durante demasiado tempo.

A identidade portuguesa, que a nós parece uma manta de retalhos, tem um aspecto mais uniforme quando é vista de fora. A reacção dos interlocutores à menção de Portugal deixou de ser desconhecimento, cepticismo ou associação ao rei da bola. Agora, é uma identificação imediata e precisa, quase surpreendente. Alguém esteve lá, alguém vai ou alguém diz que é a viagem de sonho.

Isto não é suficiente para convencer a HBO a filmar em Castelo Mendo a próxima saga de guerreiros históricos, mas já serve para pôr o rectângulo nacional no radar. E é disso que o mercado cinematográfico português precisa para dar o salto: um grande projecto que abra caminho, demonstre a qualidade das equipas técnicas e a excelência das produções nacionais. A matéria-prima já é do melhor que há.

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