Flores do campo e rosas urbanas — o povo e a elite

No auge da época do estio, quem, por esta altura, percorre os campos transmontanos depara-se com um majestoso manto de flores do campo que cobre o chão "que já coberto foi de neve fria". Nas terras de cereal, nas beiras dos caminhos, na lacuna das rochas, as flores do campo são a cor e a vida contrastante com o verde e amarelo das paisagens transmontanas. Muitas nem nome têm, outras são até consideradas tóxicas. Mas, mesmo as mais odiadas pelos agricultores acabam por ser aproveitadas com diversos fins; algumas são apenas comida para os animais, tal como uma outra erva qualquer. Longe das pragas citadinas, as flores do campo erguem-se no esplendor da vida, livres, espontâneas, humildes na sua essência, num jardim inebriante, que se demarca da futilidade, inautenticidade e invencionice das rosas urbanas.

Esta imagem constitui um retrato quase perfeito do comportamento contrastante de uma certa elite e do povo no Portugal do Século XXI - é esta a tese que surgiu no seio de uma conversa que travei com uma ilustre estudante conterrânea transmontana, a Sílvia Carneiro, e que, por ambos, deu origem a esta crónica. A proposição é então a seguinte: de um lado, tal como as flores do campo, um povo genericamente humilde, trabalhador, honesto e livre. Do outro, tal como as rosas urbanas, a tal certa elite colada ao poder, a quem não se conhece uma única ação ou ideia em qualquer área profissional; uma elite soberana, opulenta, parasita do trabalho do povo, autêntica sanguessuga dos recursos por ele possuídos.

Parece ter sido assim ao longo de toda a História lusitana. Nas colónias portuguesas, por exemplo, densas populações facilmente controláveis e exploráveis originaram a implementação de instituições extrativas. Nas colónias britânicas, pelo contrário, populações indígenas dispersas impossibilitaram igual controlo e exploração, e foram utilizados incentivos económicos para atrair colonos; o pluralismo económico e político ganhou raízes, a indústria floresceu e a prosperidade também.

A Inglaterra, berço da 1.ª Revolução Industrial, prova também a diferença. As diferenças entre os absolutismos inglês e português refletiram-se no decurso do tempo. Nos descobrimentos, o comércio marítimo ficou sob controlo estatal em Portugal e em mãos privadas em Inglaterra. As riquezas do Novo Mundo solidificaram a monarquia em Portugal e asseguraram o pluralismo político em Inglaterra que semeou as sementes do expressivo crescimento económico posterior.

O fervor da mudança e a luta pelo progresso no seio das maiores revoluções históricas, em Portugal, ficou paulatinamente a cargo do povo. Pelo contrário, a elite, ou melhor, quem sempre assim se identificou ou gracejou vir a intitular, se contrabandeou em troca de excelsas prebendas, de faustosos títulos, de lustrosos ouropéis e autocontemplações, foi sucessivamente falhando ao país e ao povo. O cenário atual não é muito diferente disso.

A prosperidade e o desenvolvimento dependem, em primeiro lugar, da capacidade dos governantes tornarem as instituições inclusivas e pluralistas, onde todos tenham as mesmas oportunidades. Só assim se permite que o potencial criativo das pessoas e dos países seja libertado, se constrói uma economia com vantagens competitivas, se cria mais riqueza para as empresas, para os seus trabalhadores e para o Estado, e se gera um círculo virtuoso que permite o progresso e a partilha de bem-estar por todos.

Para tal, o exercício dos cargos políticos deve assentar nos denominados quatro pilares da ética republicana: cumprimento das obrigações legais inerentes ao cargo; primazia absoluta do interesse público sobre os interesses particulares, em geral, e os interesses pessoais, em especial; integridade e recusa de vantagens ou favores pessoais; rejeição das relações familiares (nepotismo) ou de amizade (amiguismo) como critérios de decisão no governo da coisa pública.

Fica pois claro que, no âmbito do poder de influência na gestão dos recursos financeiros, sociais e humanos, a elite molda o progresso social, na medida em que a contribuição agregada da elite pode resultar na criação de valor ou, em contraste, na extração de valor. De acordo com o Índice de Qualidade das Elites, em Portugal, o resultado é, certamente, o segundo, com o país a ocupar um lugar pouco meritório no referido ranking - um facto que não gera grandes surpresas.

O auge da manifestação do poder desmesurado e de cariz puramente extrativo, manifesta-se no caso de Miranda do Douro. Também aqui, o poder político não tem respondido aos interesses de todos. Não tem o poder do "aspirador" central que tem permitido a extração de riqueza local para seu benefício e sem contrapartidas para a população local. Não tem o poder local porque nem todos os Mirandeses têm as mesmas oportunidades - a meritocracia não é de todo a regra pelo que uns são de primeira e outros são de segunda. A Câmara Municipal tem sido extrativa, não sabe aproveitar e não reclama os recursos disponíveis e, fora das relações familiares ou de amizade da elite local, muitos Mirandeses são afastados da vida coletiva. Não há uma clara aposta em todos, na livre iniciativa e na atividade económica. Sem investimento, inovação e capital humano o concelho foi perdendo competitividade e muito futuro.

Neste contexto, a prossecução do interesse público e de boa administração, carece de renovação, da vontade, do compromisso, e de ideias para incluir todos.

Óscar Afonso, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e sócio fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de