Foi 2020 o que esperávamos?

Há aproximadamente um ano atrás, neste mesmo fórum, refleti sobre como seria o ano de 2020 e, apesar do surgimento da pandemia de covid-19, o facto é que as tendências de fundo se mantiveram, acelerando-se com o movimento de digitalização forçada da sociedade, que acabou por se propagar na "nossa vida" em áreas desde o trabalho ao lazer.

Exemplo destas tendências é o aumento de eventos relacionados com cibercrime, uma tendência reconhecida, que se agravou drasticamente no último ano. Segundo a última informação do Gabinete de Cibercrime do Ministério Público, "foi recebido um número excecionalmente elevado de denúncias", entre março e maio de 2020, e, a partir daí, o nível manteve-se no dobro das queixas mensais registadas no ano anterior, o que tornou o ano de 2020 aquele com o maior número de incidentes relatados.

Na VisionWare, prevíamos que a ameaça cibernauta persistiria e se tornaria "cada vez mais sofisticada", e, por consequência, com maior taxa de sucesso. Infelizmente, muitas empresas e organizações dos setores público e privado, de diferentes dimensões e mercados, foram vítimas desta tendência, que foi exacerbada pela atual pandemia.

A informação recolhida identifica como mais frequente a criminalidade relacionada a fraude na utilização da aplicação MBWAY; fraude com sistemas de phishing, ransomware e CEO Fraud; burlas relacionadas com páginas web falsas e com criptomoedas; divulgação de dados privados e fotografias; perseguição (stalking) e sextortion; discursos de ódio e, ainda, violações de direitos de autor. Uma lista apreciável, que levou a uma procura "proativa" de serviços de segurança cibernauta, como aqueles que a VisionWare disponibiliza na unidade de investigação forense e de resposta a incidentes.

Internacionalmente, o tema da cibersegurança esteve transversalmente presente, por exemplo, nos mais recentes desenvolvimentos norte-americanos, marcados pelo despedimento do diretor da Cybersecurity and Infrastructure Security Agency e por um enorme ataque cibernético às infraestruturas críticas daquele país, um tipo de tendência que ameaça persistir, muito provavelmente, a um nível global.

Ainda antes da pandemia, acreditava que instituições nacionais e internacionais, nomeadamente europeias, atribuiriam uma maior importância ao ciberespaço. Com o processo de digitalização acelerada e uma parte substancial da população europeia obrigada ao teletrabalho, era inevitável a chegada da nova Estratégia de Cibersegurança da União Europeia, o que aconteceu em dezembro de 2020.

Por fim, foquei-me na utilização abusiva/excessiva de equipamentos smart no contexto da chamada Internet das Coisas (IoT). Na altura, a expetativa prendia-se com uma preocupação (que ainda mantenho) com a falta de maturidade de segurança dos indivíduos e organizações em geral, de acompanhar a evolução tecnológica em curso. Curiosamente, com a "explosão" tecnológica decorrente do "salto" obrigatório para o mundo digital em virtude da pandemia de covid-19, foram os equipamentos mais tradicionais (computadores e telemóveis) que, ao passarem forçosamente a ser a principal ferramenta de trabalho, por inerência, passaram também a ser o principal veículo de ataques cibernéticos.

Mas nem tudo são "más notícias". Segundo o relatório de Cibersegurança em Portugal do Centro Nacional de Cibersegurança, referente ao ano de 2020, houve "um aumento da preocupação com o cibercrime" e "os indivíduos alteraram mais os seus comportamentos em resultado das preocupações com a Internet". Na educação registou-se uma tendência positiva e as empresas, pelo menos em termos absolutos, "implementaram muitas medidas de segurança das TIC". Continuamos, contudo, abaixo da média europeia e as melhorias verificadas foram pouco satisfatórias, ficando aquém do seu (óbvio) potencial.

Sinto-me forçado a repetir as palavras de então: "sofisticação, rapidez, formação e a tecnologia" "em prol da proteção da sociedade civil e das organizações públicas e privadas" é onde devemos concentrar os nossos esforços para o ano que se apresenta à nossa frente.

Há um ano queria acreditar que 2020 seria um ano de viragem para a cibersegurança. E foi, sem dúvida.

Cabe-nos a todos garantir que colhemos os melhores frutos dessa viragem e que 2021 será sempre para melhor!

CEO da Visionware

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