Fordlândia em Aveiro: um sonho de Henry Ford que não acelerou

Incomodado com a dependência do humor britânico que dominava o mercado, Henry Ford decidiu que o melhor a fazer seria investir em látex para ter a sua própria borracha. Aveiro foi o sítio escolhido para seu projeto.

A história de Henry Ford é bem conhecida. O homem era um génio. Sua formação não era académica. Ford era um curioso apaixonado por questões mecânicas, com um desejo imenso de perceber como os equipamentos funcionavam. Era aquele tipo de puto cujo prazer é desmontar seus brinquedos e remontá-los. Há muitos como ele, eu mesmo já fiz isso algumas vezes, mas sobravam peças que eu acreditava excessivas e descartáveis - por isso não existe a Cardoso de Almeida Motors Company e sim a Ford.

Ainda jovem ganhava uns trocados a consertar relógios de vizinhos e amigos. Depois de algumas histórias interessantes que não cabem aqui, passou por alguns empregos fora da fazenda onde nasceu até se tornar engenheiro chefe. Ford montou um carro, era um quadriciclo, base daquele que seria seu grande feito. De seguida fundou uma empresa que quebrou. Depois viria a Ford Motors que num primeiro momento também não avançou. Na segunda tentativa, onde criaria não apenas o carro de maior sucesso do mundo à época, mas, também, a revolucionária linha de montagem que agilizava o processo, baixava os custos e transformaria a indústria, Ford teve êxito.

Ele já tinha mais de 40 anos de idade. Seu carro tornou-se um sucesso e era vendido a 850 dólares. Com o passar dos anos, a busca pela otimização dos processos e redução de custos, o preço caiu para 260 dólares. Antes da implantação da revolucionária linha de montagem o carro era oferecido em outras cores. Depois dela Ford dizia que o cliente poderia escolher a cor de sua preferência, desde que fosse preta. Tudo pela agilidade no processo.

Criou um carro barato e passou a vender como pastel em Belém, foram mais de 15 milhões de unidades do modelo T. Há livros interessantes sobre a sua biografia, um deles escrito pelo historiador estadunidense Richard Snow (Ford - O homem que transformou o consumo e inventou a era moderna) que aborda o lado genial e visionário de Henry Ford, sem deixar de mostrar sua face tirana que o levou a ser agraciado por Adolf Hitler com a Grande Cruz da Águia. Ford era antissemita. Grosso modo, seria essa a história, mas não é. Há muito mais, ela é muito rica e inspiradora.

Durante o período de sucesso da produção do modelo T, Ford, um inventor que patenteou mais de uma centena de criações, mantinha a obsessão por encontrar maneiras de reduzir os custos de produção. Um dos produtos que o deixavam nas mãos de fornecedores era a borracha, produzida nas colónias britânicas: Singapura, Ceilão e Malásia. Se pensarmos apenas em pneus para o Ford T sair da fábrica a rodar, foram mais de 75 milhões de unidades de pneus. Sem contar os sobressalentes para revenda nas franquias (concessionárias) espalhadas pelo país. As eventuais substituições nas estradas ruins da época, as trocas necessárias nas revisões. Mil milhões de pneus é um número credível. E, ainda, válvulas, juntas, batentes e mangueiras. Era muita borracha usada para ficar na dependência de um único fornecedor e isso o incomodava.

Sendo o Brasil o país de origem da seringueira, árvore que produz o látex, base da borracha, por qual motivo Ford não comprava do país sul-americano? Porque a Inglaterra roubou, literalmente, sementes da Amazónia no primeiro caso de biopirataria que se tem notícia no Planeta. Em 1876, Henry Wickham, um cidadão britânico definido pela rainha Vitoria como um homenzinho desagradável, esteve no Brasil a pretexto de juntar plumagens coloridas caídas de aves na floresta para os chapéus de damas londrinas, mas seu propósito era contrabandear sementes de seringueira, a árvore do látex. Das 70 mil sementes roubadas do país, quase 3 mil floresceram e foram enviadas às colónias britânicas. Três décadas depois, produziam borracha em larga escala e roubavam do Brasil, e da região amazónica, a liderança desse ativo natural.

Com a evidente penetração no mercado europeu, reduziram a quase zero a venda do produto brasileiro na região e, também, no mercado estadunidense. Com o declínio das vendas, esvaziou-se o interesse pelo cultivo no território da Amazónia e grande parte das árvores brasileiras foram esquecidas na floresta. Wickham, o ladrão de sementes que destruiu parte da riqueza nativa do Brasil, foi homenageado pela coroa e recebeu o título de sir. Veja você! Aquele homenzinho desagradável, um biopirata.

Ford, incomodado com a dependência do humor britânico, decidiu que o melhor a fazer seria plantar seringueiras como fizeram eles. Mas escolheu Aveiro para seu projeto. Não aquela bela cidade da costa oeste de Portugal. Aveiro às margens do Rio Tapajós, no estado do Pará, região amazónica do Brasil. Ford queria explorar a borracha no território nativo dela e gerar riqueza local, ele não imaginava aonde estava a meter a sua colher.

Em 1928 comprou uma área gigantesca (14.500 km2, ou 1/6 do tamanho de Portugal) para plantar seringueiras. Montou uma verdadeira cidade e contratou muita gente a pagar bem. Ford acreditava que o bom salário atraía os melhores profissionais, reduzia a taxa de turnover e ajudava no desenvolvimento da empresa. A "cidade" foi batizada como Fordlandia.

Os trabalhadores tinham de se adaptar ao estilo americano em relação aos horários, alimentação e costumes quotidianos. Havia cinema, sarau de poesia, teatro, hidrantes vermelhos pelas ruas, campo de golfe (!), piscina, bailes e carros a circular pela cidade. A imagem nos remete a um cenário hollywoodiano. Igreja não era permitido. Assim como era proibido o consumo de bebida alcoólica - isso era parte da receita para aquilo não dar certo. Com o tempo, os moradores de Fordlandia atravessavam o rio para consumir álcool e participar de festas pouco, digamos, ortodoxas nos bordéis construídos na outra margem e protegidos pela mata. Os trabalhadores tinham de usar crachás, registar o horário de entrada e saída e respeitar chefes truculentos. Um dos principais pratos servidos no almoço era hambúrguer. Houve uma revolta dentro do refeitório que os gerentes tiveram de se esconder na floresta até a chegada de uma brigada do exército para resgatá-los. O clima não era lá essas coisas. Havia muita violência entre eles.

Para piorar, ali não era o lugar certo. Plantaram as árvores muito próximas umas das outras, diferentemente do que ocorre na natureza, e isso as transformou em presas fáceis para micro-organismos. Os executivos de Ford que haviam ido negociar a área, sem qualquer experiência agrícola da região, aceitaram um local que não era bom para o cultivo de seringueiras, foram enganados. Uma terra que poderia ser doada pelo governo - que muitos pensam que foi -, na verdade fora comprada de um atravessador que soube com antecedência o propósito da vinda daqueles executivos. Em poucos anos as árvores foram tomadas por fungos e o projeto começou a fazer água. Já a conhecer a região e com a ajuda de técnicos agrícolas, escolheram outro local para a plantação: Belterra, onde formaram uma segunda cidade nos mesmos moldes. Replantaram as seringueiras na região e passaram a produzir bastante látex.

Em 1945, após a morte de Henry Ford, seu herdeiro cancelou o projeto. Especialmente porque a borracha sintética já era uma realidade. Os executivos partiram rumo a Detroit para viver longe dos riscos da malária, a deixar para trás 1.900.000 seringueiras em Fordlandia e 3.200.000 em Belterra. E mais: seis escolas; dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilómetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; departamento de pesquisa e análise de solo. Hoje Fordlandia é considerada uma cidade fantasma.

Alguns residentes preferiram permanecer na cidade e migraram suas atividades para a agropecuária e pesca. Muitos partiram em busca de mais opções de trabalho. O local poderia, na pior das hipóteses, ter se tornado um polo turístico por se tratar de uma "cidade americana" em plena Amazónia. Foi pior, bem pior. É o retrato do abandono. Uma pena para quem vive na região, para a economia local e até mesmo para o sonho de Henry Ford, abandonado por seu herdeiro.

Entretanto, como grande parte da história de Henry Ford nos ensina algo, essa também oferece-nos uma lição: um projeto cujo início correu muito mal, tem tudo para acabar pior ainda. Especialmente se aquele que investiu para que desse certo, não estiver no comando com sua energia, perseverança e resiliência.

Fica a dica.

Jornalista designer brasileiro

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