Formar para uma sociedade mais "cibersegura"

No início de novembro, a TSF levou o tema da literacia e educação em cibersegurança aos seus comentadores residentes, procurando entender a razão de Portugal apenas ocupar o 25º lugar (em 50) no índice de literacia e educação em cibersegurança.

Os países incluídos(1) no Index correspondem a geografias onde o tema do ciber-risco, seja pelo seu desenvolvimento ou influência económica, já tem relevância junto das populações. Depois, foram analisados cinco "drivers": a motivação pública, as políticas do Governo, o sistema de educação, o mercado de trabalho e a inclusão da população. A motivação pública e o mercado de trabalho foram as áreas em que Portugal obteve os piores resultados, revelando assim falta de compromisso da população para com a cibersegurança e a falta de capacitação em cibersegurança nas empresas.

Esta é uma realidade que nos deve preocupar pois, num mundo cada vez mais digital, a falta de literacia cibernética, associada a uma falta de educação em cibersegurança, consubstancia uma enorme vulnerabilidade para a sociedade em geral, com implicações diretas sobre o tecido empresarial português e, ao mesmo tempo, criando uma enorme oportunidade para os cibercriminosos que atuam baseado no fator humano.

A promoção de uma cultura de segurança é, aliás, um dos eixos da Estratégia Nacional de Segurança do Ciberespaço: "O sucesso da segurança do ciberespaço passa pela promoção de uma cultura de segurança que proporcione a todos o conhecimento, a consciência e a confiança necessários para a utilização dos sistemas de informação, reduzindo a exposição aos riscos do ciberespaço. É fundamental informar, sensibilizar e consciencializar não só as entidades públicas e as infraestruturas críticas, mas também as empresas e a sociedade civil".

É neste sentido que temos procurado ajudar os nossos clientes a aumentar a resiliência dos seus colaboradores, através de ações de formação em áreas como cibersegurança, privacidade de dados ou meramente boas práticas em como se "mover" mundo cibernauta. Verificámos, aliás, um aumento substancial da procura (contamos em 2020 cerca de 3410 formandos!) desde que criámos a Academy, em 2018, com particular destaque para a formação e-learning no último ano, em virtude da pandemia de COVID-19.

Reconhecemos, contudo, que há ainda um longo caminho a percorrer, nomeadamente no que concerne a referida falta de motivação pública e estruturação das empresas. Efetivamente, muitos indivíduos e organizações ainda não "despertaram" para a relevância da cibersegurança nos vários domínios da sua vida - pessoal ou profissional. Conforme referi aqui, a maioria dos portugueses passa uma boa percentagem do seu dia ligada à internet, realidade que, sabemos, aumentou bastante no último ano.

É preciso, por isso, trabalhar em várias frentes. Se, por um lado, a autoridade pública e os media têm vindo a ter um papel ativo na disseminação do tema da segurança, nas suas várias vertentes, colocando-o nas suas políticas públicas e na ordem do dia, também os privados, nomeadamente a gestão de topo das organizações privadas, têm de o fazer. Não se trata apenas de partilhar a responsabilidade. Não considerar a cibersegurança do negócio é um erro cujas consequências podem ser terríveis para a sua continuidade.

O último ano ensinou-nos, à força, que o que é verdade num dia, pode deixar de o ser noutro, de forma totalmente inesperada. Pensar a longo prazo e prevenir, reconhecendo que vivemos uma realidade muito dinâmica, são sem dúvida estratégias indispensáveis para enfrentar a volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade deste mundo e, em última análise, alcançar o sucesso. A cibersegurança tem um papel central no presente e no futuro.

1- Suíça, Singapura, Reino Unido, Austrália, Holanda, Canadá, Estónia, Israel, Irlanda, EUA, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, França, Nova Zelândia, República Checa, Emirados Árabes Unidos, Áustria, Letónia, Noruega, Polónia, União Europeia, Qatar, Portugal, Espanha, Bélgica, Japão, Eslováquia, Arábia Saudita, Itália, Coreia do Sul, Rússia, Lituânia, Eslovénia, Chipre, Kuwait, Croácia, Hungria, Bulgária, Grécia, Brasil, Roménia, México, Índia, Indonésia, Argentina, Turquia, China e África do Sul.

*CEO da VisionWare.

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