Francisco Aguilar não está só. Há outros idiotas como ele. Muitos!

Estávamos, minha mulher e eu, numa loja de enxovais de bebé, nos Estados Unidos, a procurar um presente para a filha recém-nascida de amigos. Atendidos por uma senhora elegante – que nos pareceu ser a proprietária -, trocávamos ideias sobre as opções. Estávamos realmente encantados com o atendimento gentil, a loja e seu interior bem decorado. Eis que ouvimos vozes estridentes a entrar: era um casal de brasileiros. Ele falava alto, ria mais alto ainda, com jeito espalhafatoso. Parecia querer chamar a atenção para si, queria mesmo.

De um lado da loja gritava à esposa do outro lado: “olha ixxto amorrrr!”, a arrastar os esses e erres feito uma caricatura do mais carioca dos cariocas. Parecia estarem apenas eles ali. Ficamos meio que paralisados a observar a performance circense que nos gerou vergonha alheia. Minha mulher o identificou: é o Mário Frias – disse. Confesso que sou péssimo para memorizar nome de ator, especialmente ator inexpressivo. Quem? – perguntei. Mário Frias, ex-ator de Malhação – respondeu. Malhação é uma novela teen da Rede Globo, retransmitida pela Sic. Eu continuei sem saber quem era o ilustre indivíduo. Seguimos nossa conversa em tom baixo quando ele gritou: “Amorrrr! Vou mijarrrr!”. Assim, com toda a educação que um recinto público requer. Ainda bem que ele não ia fazer outra coisa.

Pequenos sinais mostram muito de uma pessoa. Se você ainda não se deu conta disso, atenha-se a eles. A novela Malhação, que está no ar desde 1995, serviu como celeiro de talentos da emissora. Muitos dos jovens que passaram por ela se transformaram em atores das principais novelas na grade da emissora, ou fora dela. Outros migraram para o teatro com sucesso, alguns se tornaram apresentadores de uns poucos programas e muitos ficaram no limbo entre o pretenso sucesso passado e o nada presente. Se tornam aquele tipo de personalidade que é precedida da pergunta: quem é ele mesmo? Mário Frias é dessa turma, uma subcelebridade.

Mas, alto lá! Mário deu certo como um autêntico e circense lambe-botas – com todo o respeito aos artistas de circo, faço aqui uma analogia por sua necessidade de picadeiro como a que constatei pessoalmente. Atualmente ele é o Secretário de CULTURA do Brasil no governo Jair Bolsonaro. Era um ministério, mas como Bolsonaro dá muita importância à cultura, rebaixou a pasta para Secretaria Especial.

O atual governo – não entrarei no mérito da questão – especializou-se em errar nas nomeações ministeriais. Frias entrou no lugar de uma das atrizes do mais alto escalão das telenovelas, Regina Duarte. Ela surtou fazendo declarações absurdas a ponto de dizer que sentia saudades da época em que cantava as músicas da ditadura militar. Apanhou tanto da classe artística quanto dos políticos. Em entrevista a uma rede de tevê, ainda fora do ar, ela começou a esbravejar com os entrevistadores de uma forma que parecia estar drogada, sem nexo. Não exagero. Foi deprimente a cena. Ela caiu.

Antes mesmo de sua queda, enquanto tentava se equilibrar na pasta, Mário Frias “se colocara à disposição” de Bolsonaro. Iniciou uma campanha para ele mesmo, saiu a elogiar o presidente, suas falas, sua política etc. Alguém deve ter dito a Bolsonaro: “presidente, esse rapaz é limitado, não serviu nem para ator, não conseguiu emplacar. Não vai fazer nada de especial”. Ganhou o cargo.

Logo que lá chegou para não fazer nada, criou uma campanha de sua pasta a falar da memória nacional, a necessidade de “recontar a história”, onde ele próprio protagoniza cenas ridículas num cenário que parece ter saído do filme O Poderoso Chefão. Disseram nas redes sociais que ele estava com saudades de filmar, vez que há muito não era chamado para nada. Mas deve ser maldade...

Sua campanha foi satirizada por Marcelo Adnet, um multitalentoso artista: poliglota, roteirista, compositor, ator, comediante - Adnet é a nova cara da sátira inteligente. É o melhor da atualidade. Como não poderia ser diferente, Bolsonaro o odeia por suas imitações perfeitas. Os bolsonaristas, idem.

Mário Frias ficou tão irritado com a sátira feita por Adnet que saiu a dar tiros nas redes sociais. Pior! Convenceu a tropa de choque de idiotas da Secretaria de Comunicação do governo federal, veja só!, a fazer uma nota de repúdio ao quadro.

Era uma sátira, não se tratava de um editorial num jornal de grande circulação. Não era uma declaração de uma entidade, de um partido. Era um quadro de humor. Eles fizeram uma nota oficial de repúdio a uma sátira. Ou seja, valorizaram 1000% o trabalho de Adnet, são burros e mimados. Isso parece até ter graça se não estimulasse reações incontroláveis como as que vimos, no limite, ocorridas contra o Charlie Abdoo. Não, não tem graça. Estimula idiotas anónimos a agirem assim em suas casas. É triste que estejamos nós, brasileiros, sendo conduzidos por idiotas que estão a fazer barulho nas redes sociais ao invés de ajudar a arrumar esse país em frangalhos. E esse barulho tem o propósito de desviar a atenção dos problemas que não são solucionados.

A última do Mr. AmorrrVouMijarrr foi um ataque machista à atriz Fernanda Paes Leme, da Rede Globo, que havia dito em Agosto passado em uma entrevista, que seu vibrador havia quebrado de tanto uso e ela precisava arrumá-lo. Mário parece se ter ofendido com a coragem da mulher ao admitir publicamente o uso de um vibrador. Mário Frias, com sua inteligência obtusa, escreveu: “Que vida solitária, não?”. Ele mostra que além de burro, é burro. Deve realmente acreditar que sua esposa só sente tesão com ele – e, se acredita, ela é melhor atriz que ele – sem ser atriz.

Típica maneira de machistas estridentes tratarem mulheres como objetos. Eles têm medo de admitir que uma mulher pode ter prazer sem que eles estejam por perto - o que em muitos casos, esse acaba sendo o verdadeiro momento de prazer de muitas mulheres, convenhamos. O secretário de Bolsonaro foi acompanhado por um outro membro do governo com comentários infelizes sobre o vibrador. Trata-se de um negro racista que alega ter sido positiva a escravidão, e diz que negro brasileiro é vitimista. Esse nem merece ser citado.

Mário Frias, exemplo cultural de declarações machistas e misóginas do governo Bolsonaro, é a versão tupiniquim de outro idiota: Francisco Aguilar - o professor de direito que compara feminismo a nazismo, mulheres a pessoas desonestas, “espertas”, canalhas e gritou em uma audiência no tribunal: “morte a todos os feminismos”. Quanta boçalidade nos rodeia atualmente, nos dois lados desse imenso lago, Senhor! Idiotice não tem nacionalidade.

Eles são aqueles seres que acreditam ser o feminismo uma arma contra o homem, sem entender que o feminismo é uma luta pela igualdade e respeito. Nada contra o homem. Eles se mostram tão inseguros quanto o secretário brasileiro que pediu ajuda para repudiar uma sátira. Mas eles, os machistas, são os que menos incomodam, por serem minoria no noticiário. O que realmente assusta é o idiota calado que se alimenta dessas ideias que eles difundem. Esses formam uma grande multidão de idiotas anónimos. Que agem brutalmente contra as mulheres em suas casas. Agridem, desrespeitam, assediam, na ilusão de que quando querem as farão gozar. Não! Não funciona assim.

Sou feminista.

Em minha carreira tive chefe mulher - que foi uma das melhores experiências. Sempre trabalhei com mulheres capazes, inteligentes, com as quais dividi autoria de projetos, com algumas aprendi muito e sempre fui grato. Sou casado e tenho duas filhas. Não há hipótese de pensar diferente do que lutar por seus direitos. A resposta dada pela atriz ao secretário - ex-ator que não deu certo - AmorrrVouMijarrr, foi sensacional e mostra que o prazer feminino não é monopólio dos homens:

“Eu juro que não me incomoda o que você acha de mim... ...Mas então porque eu decidi responder? Porque além de um bom vibrador, expor macho fragilizado e limitado também me dá prazer.”

Você, que é homem e leu até aqui, saiba que mais de 50% das mulheres simulam orgasmo para não decepcionar o parceiro. Já falou abertamente com sua parceira sobre orgasmo, prazer, tesão? Não? Então, meu amigo, você engrossa a fila de homens que obrigam a mulher à simulação. E você nunca saberá quando. Aceite que dói menos.

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