Coronavírus

Fusões e aquisições. Um cisne negro chamado covid-19

EPA/MANUEL DE ALMEIDA
EPA/MANUEL DE ALMEIDA

No momento em que vos escrevo, poucos duvidam em classificar a atual pandemia como um cisne negro: um evento de impacto global que, pela sua natureza e características, não era razoavelmente previsível.

Para além dos severos impactos sanitários e sociais, os danos causados na economia mundial pela covid-19 são evidentes, principalmente: nos sectores do turismo e dos transportes, pela elevada percentagem de cancelamentos e limitações de deslocação impostas pelas autoridades; em diversas empresas que viram as suas as cadeias de produção ou distribuição afetadas, principalmente se expostas aos países afetados; ou nos principais índices bolsistas que, no último mês, desvalorizaram mais de 30%.

Em resposta, Bancos Centrais, Instituições Supranacionais e Governos têm-se desmultiplicado em medidas de estímulo à economia com vista a restabelecer confiança dos agentes de mercado e proteger as empresas dos impactos da pandemia.

Não obstante, perante o cenário de disrupção económica, das quebras de performance financeira e de liquidez das empresas e da elevada dependência de investimento externo, será plausível antecipar cenários, de curto prazo, no que respeita à evolução do sector nacional de fusões e aquisições:

Operações: deveremos assistir ao abrandamento, suspensão ou cancelamento de projetos caso: o comprador ou vendedor estejam localizados em países severamente afetados; dependam de financiamento bancário; envolvam sectores de maior exposição às consequências da covid-19 (segundo a Moody’s Analytics: turismo, transportes, automóvel, têxteis (vestuário), retalho (non-food) ou bens duradouros);

Avaliações: atendendo a que a formulação de preços é, geralmente, calculada através de múltiplos sobre os resultados operacionais das empresas, compradores deverão demonstrar maior atenção à evolução de receitas e despesas perante o momento atual e contenção nas avaliações dos ativos-alvo;

Ativos em stress: apesar dos apoios às empresas, muitas irão enfrentar situações de stress financeiro – a entrada de investidores, como Private Equity, poderá ser vista com bons olhos e, em sectores estratégicos, os Estados poderão ter um papel ativo (notícias recentes referem que o Governo Britânico poderá capitalizar companhias aéreas nacionais e, na Alemanha, foram reforçados poderes para bloquear aquisições de grandes grupos Germânicos);

Ativos não-essenciais: as empresas poderão alienar ativos que não sejam considerados essenciais à sua atividade, gerando liquidez e potenciais mais-valias que permitam equilibrar os seus resultados;

Geografias e sectores preferenciais: poderá ser dada prioridade a operações em sectores (p.e. imobiliário, telecomunicações, infraestruturas ou construção) e em regiões (p.e. América Latina) até agora menos afetados pelos efeitos da pandemia;

Digital: diversas empresas poderão vir a reconhecer a relevância e necessidade de investir nos seus canais de comunicação e distribuição digital, considerando a aquisição de empresas que contribuam, decisivamente, para esta nova realidade.

Naturalmente, as hipóteses acima terão de ser analisadas à luz de uma variável sobre a qual existe grande incerteza: o período de tempo necessário para ultrapassar a conjuntura atual.
Estudos recentes da Oliver Wyman mostram que, na China, o número de novos casos atingiu o pico cerca de um a dois meses após o primeiro caso ter sido detetado. Após um período de quase três meses, onde a prioridade foi combater o vírus, o país começa a regressar à normalidade e a reiniciar a sua economia.

Assim, caso as medidas de contenção da pandemia se revelem eficazes e permitam o combate à covid-19 num hiato temporal semelhante ao da China, poderemos vir a assistir a um último trimestre de retoma do fluxo de operações de períodos homólogos, embora 2020 não deva poder ser comparado com os anos mais recentes. Afinal, estamos perante um cisne negro.

*Private Equity and M&A Specialist da Marsh Portugal

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