Opinião

Futebol Profissional em Portugal: crescer ou morrer?

Benfica FC Porto
Lusa

O Futebol Profissional é uma indústria bilionária altamente profissionalizada onde, de acordo com a UEFA, as receitas anuais associadas apenas às ligas europeias ultrapassam os 21 biliões de euros, sendo responsável por milhares de empregos.

Os números em Portugal

No nosso estudo, Anuário do Futebol Profissional Português para a época 2018-19, verificamos que a Indústria do Futebol Profissional em Portugal registou um contributo total de 549 milhões de euros para o PIB português e que a atividade da Liga Portugal e das 32 Sociedades Desportivas (SD) presentes nas ligas profissionais geraram receitas superiores a 874 milhões, permitindo ao Estado Português arrecadar mais de 150 milhões de euros em impostos.

Sendo verdade que até à época passada o valor e as receitas têm crescido nas SD em Portugal, é também verdade que estamos a divergir das principais ligas europeias. Mais do que perceções, a dureza dos números diz-nos, por exemplo, que entre 2010 e 2018 as receitas médias por SD nas três principais ligas europeias tem crescido a uma taxa média anual próxima dos 9%, o que contrasta com os 4% na Liga NOS.

A par da divergência para a Europa, vem que o grau de assimetrias entre SD em Portugal tem vindo a aumentar (na época em análise 73% das receitas concentra-se nos três primeiros classificados), o que coloca o panorama competitivo, cada vez mais, em risco. Note-se que esta desigualdade colocou algumas SD no limiar da sobrevivência durante a crise, com desfecho ainda incógnito.
O mais provável é esta crise ter esgotado o pequeno balão de oxigénio que ainda permitia manter o status quo, tornando urgente uma estratégia para a indústria no seu todo, que precisará de apoio como em qualquer atividade económica com este peso e potencial exportador para o País.

Mudança de paradigma: uma estratégia para a indústria

Este potencial subaproveitado, associado a à atual crise pandémica com impactos tão significativos na indústria, tornam absolutamente urgente a mudança de paradigma em Portugal.

O paradigma atual tem conduzido ao distanciamento entre a sociedade e o futebol: polémicas, casos de justiça, dúvidas sobre a verdade desportiva e casos de violência, representam perdas avultadas para a indústria, diminuindo o engagement do adepto e consequentemente o valor das marcas. E se, durante os últimos anos, alertamos para este facto, sem por vezes conseguirmos mostrar exemplos concretos, nas últimas semanas assistimos a sintomas antes impensáveis – como o distanciamento de duas cadeias de media que cancelaram programas de debate futebolístico por não se identificarem com os valores neles transmitidos. O que, evidentemente, levanta uma reflexão relativamente à perda de valor dos conteúdos associados ao futebol.

As empresas (onde se incluem as SD) e organizações que gerem o futebol devem ter claro quais são os seus ativos mais valiosos, quais as suas fragilidades e o que devem fazer para crescer. Nesta indústria, pensar em crescer sozinho terminará num empobrecimento sistemático do setor, devendo-se olhar para os exemplos europeus que demonstram a força que traz a criação de valor para toda a indústria (onde vemos que peso dos direitos televisivos internacionais ultrapassa 40% do total).

A estratégia terá de ser concertada e com ambições claras que passarão, sem dúvida, por uma estratégia de valorização interna e internacional das competições que, dificilmente, será concretizada sem ferramentas tão importantes como a centralização de direitos audiovisuais, a promoção do futebol positivo e a revisão dos modelos competitivos – temas que estão, entre os vários, sinalizados no nosso estudo.

A atual crise, associada à debilidade estrutural da indústria em Portugal, pode ter impactos catastróficos. O sentido de urgência para alterar o paradigma atual pode muito bem definir se o futuro é crescer ou morrer.

*Partner e responsável pela área de Strategy and Transactions da EY Portugal

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