Opinião

Opinião. Chamar os bois por outros nomes

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Há agora em West Hollywood e Marina del Rey, duas localizações onde é preciso vender um rim para pagar a renda, um novo estilo de vida: “co-living.”

Esbarrei com um novo conceito em Los Angeles que é o epítome dessa tendência enervante de dar nomes diferentes às coisas para que pareçam mais nobres. Estão a ver, isto de chamar “colaboradores” aos trabalhadores, ou “parceiros” aos fornecedores, “expatriados” aos imigrantes com dinheiro, e por aí fora. Há agora em West Hollywood e Marina del Rey, duas localizações onde é preciso vender um rim para pagar a renda, um novo estilo de vida a que chamam de “co-living.” O auto-intitulado Aviato Club oferece uma comunidade em que se partilham quartos e espaços de trabalho a preços mais razoáveis que o tradicional pesadelo de procurar um apartamento para arrendar em Los Angeles. “Viver, trabalhar, network” é o mote desta empresa, que faz parcerias com firmas de imobiliário para providenciar estes espaços.

Visto assim, parece uma coisa super trendy e moderna, quase apetecível. Querem criar relacionamentos com significado num estilo de vida partilhado? Sim, somos modernos e queremos isso tudo. Descobri depois que o Aviato Club também está em São Francisco, cidade onde as rendas mensais conseguem ser ainda mais incomportáveis que em Los Angeles. Olhei para a galeria de fotos destes espaços em locais super apetecíveis e para a descrição da oferta, que promete a criação de laços com significado num estilo de vida partilhado.

Meus caros, chamar a isto “co-living” é apenas uma forma criativa de não dizer o óbvio – isto é ter colegas de casa. Viver num apartamento com beliches aos 30 anos não é trendy, é horrível. Não há marketing que chegue para mascarar a realidade com que os jovens desta geração se deparam nas cidades onde está o epicentro da tecnologia e entretenimento: ninguém consegue pagar casa sozinho.

Mais pesquisas sobre o assunto levaram-me ao site coliving.org, onde isto é descrito como “partilha de casa desenhada para suportar uma vida com propósito” e “um estilo de vida moderno, urbano, que valoriza a abertura, partilha e colaboração.” Senhores e senhoras, chegámos ao momento em que as ideias da economia partilhada chegaram a casa.

Não há nada de novo num grupo de pessoas que partilham casa para poupar custos enquanto sobem na carreira em cidades caras. Esse é o modo de vida em LA e São Francisco há muito tempo; mas agora, há empresas a lucrarem com isto. Em Oakland, Califórnia, a startup Open Door gere propriedades que não são mais que dormitórios com serviço de limpeza embrulhados num papel bonito e chamado de “co-living.” Há mais assim, por exemplo a WeLive e a Common. Uma destas pode vir a ser o Uber dos colegas de casa. E nunca deixa de ser surpreendente a forma como tudo isto é virado do avesso para dar um toque de modernidade a um problema grave de alojamento acessível em cidades onde a gentrificação e a chegada de gente com muito dinheiro (cc: milionários instantâneos da tecnologia) deram cabo do equilíbrio entre a oferta e a procura. Até a Ikea, através do seu laboratório Space10, está a investigar o futuro do “co-living” e a projetar como vamos viver em 2030. Tudo em dormitórios? Em casas gigantes partilhadas por uma dezena de amigos instantâneos?

É quase insultuoso que se coloque no mesmo nível o co-working e este co-living. Usar um espaço de trabalho mais barato faz sentido; viver numa casa com mais 10 pessoas e chamar-lhe “estilo de vida moderno”, onde nunca se consegue escapar para um sítio só nosso (nem a cama), é aterrador. Certo, muita gente lembra os tempos de faculdade em dormitórios com muita nostalgia, mas estender isso bem além da idade adulta quase nunca é voluntário. Como escreveu o The Guardian recentemente, isto é mais uma dessas instâncias em que algumas cabeças pensantes de Silicon Valley pegam em algo que existe e lhe dão outra roupagem, para depois dizerem que inventaram uma coisa nova. Podem chamar-lhe o que quiserem, mas não tentem convencer-nos de que isto é a solução adequada para o problema. É bom que haja alternativas em tudo, e a economia partilhada tem muitas vantagens. O que não podemos é esquecer-nos da erosão que traz em tantos outros aspetos e achar que já não é preciso atacar a raiz de tudo isto: uma galopante iniquidade.

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