Greves nos transportes públicos

De acordo com uma reportagem no jornal Público, desde que o governo tomou posse já houve cerca de 500 dias com greve nos transportes públicos. Este facto é chocante de tantas formas que é difícil saber por onde começar.

Primeiro, quase todas as empresas neste sector têm prejuízos crónicos e elevados. Quando os trabalhadores exigem melhores condições, não estão a tentar aumentar a fatia que recebem da riqueza que é produzida pela sua atividade. Na margem, cada euro a mais recebido por um trabalhador da CP é apenas um euro a mais de impostos sobre todos nós. Quando falta dinheiro para apoiar os mais pobres, é difícil justificar esta redistribuição de riqueza.

Segundo, o sector dos transportes consumiu enormes recursos em infraestruturas e equipamento nos últimos 20 anos. Por cada dia em que a linha de metro fica por usar, estamos a desperdiçar os frutos desse investimento, que em parte criou o fardo da dívida pública que hoje nos sufoca.

Terceiro, não é verdade que a existência de transportes públicos diminua o trânsito. A chamada “lei fundamental do trânsito” diz que os investimentos em autocarros ou metro não têm quase efeito no número de quilómetros percorridos por carros numa zona metropolitana. Embora milhares de pessoas deixem de usar o carro para viajar antes de transporte público, porque em consequência as estradas ficam mais vazias, então outros milhares decidem começar a usar o carro para pequenas viagens ou escolhem morar mais longe do trabalho. O efeito total no trânsito acaba por ser perto de zero. Mas quando, inesperadamente, há uma greve, o efeito dos transportes públicos no trânsito é assimétrico. No curto prazo, porque muitos só podem usar a estrada, o trânsito dispara para acomodar as rotinas de todos.

Quarto, além do número de carros na estrada, conta muito o tempo que as pessoas demoram na viagem. Ora, quem escolhe andar de transporte público são já pessoas para quem a alternativa são longas viagens presas no trânsito. Por isso, quando há greve, produz-se um efeito desproporcional nos atrasos nas viagens. Um estudo recente em Los Angeles estimou que uma greve subiu 47% o tempo das viagens.

Quinto, e voltando à redistribuição da riqueza e à desigualdade, são as classes média e baixa que mais dependem dos transportes públicos. São eles que só têm recursos para morar nos arredores, mas têm emprego com salário baixo nos centros da cidade. São também eles que, mais provavelmente, não terão carro disponível em dia de greve.

Em troca de todos estes custos sobre a sociedade, o que ganharam os trabalhadores dos transportes públicos com todas estas greves? O que ganharam as forças políticas que estão tantas vezes por detrás destas paralisações, quando os eleitores não culpam o governo mas antes os funcionários dos transportes públicos pela transtorno causado?

Perderem-se uns dias quando é difícil ver um propósito claro é inconsequente. Mas perderem-se 500 dias é mesmo trágico.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Foto: DR

Telecomunicações: Há sete anos que preços sobem mais do que na UE

Fotografia: RODRIGO ANTUNES/LUSA

Acordo à vista para alargamento das 35 horas a 30 mil trabalhadores

31145227_GI240418JF040_WEB

Ryanair tem até 30 de junho para travar greve europeia

Outros conteúdos GMG
Greves nos transportes públicos