Grevolândia

O termo "greves" tem ocupado uma mancha muito significativa na agenda mediática e, infelizmente, pública. Fico com a sensação de que, quase diariamente, há alguma entidade onde um grupo de trabalhadores decide não trabalhar: Infraestruturas de Portugal, SEF, CP, o Metro, os professores, entre outras. Sublinho: não coloco em causa os direitos dos trabalhadores, nem a justiça das suas reivindicações. Mas o bom senso não pode entrar em greve.

O pior ainda não passou e a economia ainda não está a recuperar de forma otimista e sustentada do abalo da pandemia. Mesmo com as revisões em alta, não está, e nunca estará, se este para-arranca continuar. Mas o serviço público insiste em não cooperar. É curioso pensar que, enquanto os privados enfrentam mais de um ano de prejuízos ou diminuição de lucros e muitos dos trabalhadores deste setor foram os que ficaram sem ordenados, aos trabalhadores do Estado - os que têm postos de trabalho estáveis, apesar de baixos - os salários foram sempre pagos. E bem, mas, ainda assim, são estes mesmos trabalhadores que paralisam o país, num dos períodos mais dolorosos que a economia vai recordar.

Não se pode pedir apenas às empresas privadas para segurarem os trabalhadores até à economia recuperar. Deve ser um esforço conjunto. É de bom senso não boicotar quem quer trabalhar. É a empatia de não prejudicar a classe mais pobre, a quem os serviços públicos são imprescindíveis para as suas rotinas profissionais, pessoais e familiares. Cortarem os transportes é impedir muitos milhares de pessoas de se deslocarem, para o trabalho e não só. Um dos grandes problemas das greves é precisamente este: as classes mais desfavorecidas são sempre as principais prejudicadas.

Não faço futurologia, mas, provavelmente, não enfrentaremos uma quinta vaga. Já vai tarde, mas desta vez temos mesmo de meter a economia ao leme e pensar na recuperação do país. Todos, os privados que sempre o fizeram, mas também o setor público. Ao leme, mas a remar no mesmo sentido. O barco é o mesmo.

Empresário, Presidente da Associação Comercial do Porto

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