Opinião: João Almeida Moreira

Groucho, Cipolla e Bolsonaro

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES

A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todo o lado, diagnosticá-los incorretamente e aplicar os piores remédios para os resolver, dizia Marx. O Groucho, claro.

Ele não conheceu Bolsonaro – nem Bolsonaro o deve conhecer, apenas o homónimo Karl e mal – mas a definição encaixa como uma luva no presidente brasileiro.

O exemplo mais claro é o eterno e paradigmático caso do golden shower: para quem não se lembra, Bolsonaro, como Groucho um mestre do non sense, criticou os excessos no carnaval a propósito de um episódio no meio da folia paulistana – um homem a urinar sobre outro, a tal prática sexual conhecida como chuva dourada.

Decidiu que a festa mais popular do Brasil, que do século XIX ao XXI, atrai do norte a sul do país, de crianças a idosos, de pobres a milionários, de brasileiros a turistas, estava impregnada de pecado e decidiu partilhar o vídeo nos seus perfis nas redes sociais fazendo da tal prática, antes muito restrita, um tema nacional.

O problema não existia – mas Bolsonaro procurou-o, encontrou-o, diagnosticou-o mal e aplicou o pior remédio possível.

O mesmo sucedeu mais uma, duas, dez, centenas de vezes ao longo do seu ainda curto mas já tão desgastante consulado.

Outros exemplos avulsos: ao decidir-se por tomar partido na questão Israel-Palestina, prometendo transferir a embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém, ofendeu os países árabes, que estão entre os maiores importadores de carne brasileira.

Perante a ameaça de boicote ao produto, recuou e abriu apenas um escritório comercial na Cidade Santa mantendo a embaixada na capital israelita.

Com isso, conseguiu irritar os árabes, por causa da intenção inicial, e desiludir os israelitas – e a população evangélica brasileira a quem prometera a troca -, por não ter honrado a sua palavra.

E o problema, se não fosse Bolsonaro, nem existia.

No caso da flexibilização da posse e do porte de armas, o presidente desagradou à maioria da população, contrária a essa política.

Mas também aos seus mais bélicos apoiantes, de polícias a militares, de fabricantes de armas a meros sanguinários avulsos, desiludidos com o alcance necessariamente reduzido, pela constituição, dos seus projetos de lei e decretos.

O confronto aberto com os ambientalistas, a quem chama de “xiitas”, incentivando agrotóxicos, desmatamentos e queimadas, incomodou, nada mais, nada menos, do que o mundo inteiro.

Mas também os grandes latifundiários, supostos beneficiários da política suicida, para quem os seus negócios, alertaram em entrevistas, só têm a perder se o Brasil cultivar a imagem de inimigo da ecologia e da sustentabilidade.

O eleitorado mundial pós crise económica de 2008 e advento da globalização e do globalismo aparentou cansaço com os líderes que, para problemas reais, buscavam soluções de compromisso, diálogo e consensos como remédios.

As maiorias atraíram-se por populismos desalinhados, musculados, nacionalistas e fanáticos, rejeitando os políticos tradicionais que gostavam de agradar a gregos e a troianos.

Muito bem, estão no seu direito legítimo e democrático.

Mas era escusado votar em gente que desagrada a gregos e a troianos, a espartanos e a tessalonicenses, a macedónios e a esmirniotas (e no máximo agrada a meia dúzia de cretinos).

Conforme a classificação de Carlo Cipolla, o economista italiano que no seu Allegro Ma Non Troppo estabeleceu “as leis fundamentais da estupidez humana”, os inteligentes conseguem pelas suas ações criar vantagens para si e para os outros, os bandidos só vantagens para si, os crédulos só vantagens para os outros, e os estúpidos desvantagens para toda a gente – o presidente do Brasil pertence, com todos os méritos, ao quarto grupo.

E o estranho é que Cipolla, como Groucho, nem conhecia Bolsonaro.

Em São Paulo

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