Opinião: Carlos Brito

Há mais talento para além do CR7

Fotografia: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
Fotografia: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

Por outras palavras, sendo “ricos” em talento, não deveríamos ter uma melhor performance?

Há países que são ricos em recursos minerais como ouro, carvão ou petróleo. Outros que possuem dimensão e condições endógenas especialmente adequadas à produção agrícola ou pecuária. Portugal parece não ser especialmente rico em nada.

Errado! Segundo o último relatório do IMD – Institute for Management Development, o nosso país situa-se em 17.º lugar a nível mundial no que se refere a talento. O que nos coloca, aliás, à frente de países como o Reino Unido, a França e o Japão – assim como dos nossos compagnons de route Irlanda, Espanha e Grécia.

O ranking desenvolvido por aquela prestigiada business school suíça baseia-se em três fatores: o investimento que cada país faz na geração de talento; a sua capacidade para reter e atrair talento; e a disponibilidade de talento no mercado de trabalho.

Portugal ocupa em cada um desses fatores, respetivamente, a 7.ª, 29.ª e 22.ª posições. Para tal contribuem positivamente o investimento público feito em educação, a qualidade das nossas escolas de negócios, o elevado peso das mulheres no mercado de trabalho, bem como a competência da força de trabalho em geral. Os aspetos menos positivos têm a ver com baixo nível salarial, a fraca aposta das empresas na formação dos colaboradores e a limitada experiência internacional de muitos dos nossos quadros executivos.

Ora, sabendo que há uma forte correlação entre o talento que cada país possui e a sua performance económica, pergunta-se: por que razão Portugal, estando bem situado no ranking do talento, não vê isso refletido nos resultados económicos?

Com efeito, de acordo com os últimos dados do World Economic Forum, surgimos na 36.ª posição em termos de competitividade a nível global e, no que se refere ao PIB per capita, estamos em 34.º lugar, de acordo com o Banco Mundial. Por outras palavras, sendo “ricos” em talento, não deveríamos ter uma melhor performance?

Sobre isto não vale a pena culpar o “suspeito do costume”: o Governo, seja o atual ou os anteriores. Num sistema como o nosso, a quem cabe criar riqueza com base no talento é, essencialmente, às empresas que, para tal, precisam de adotar estratégias de valorização dos seus produtos e serviços mais eficazes nos mercados internacionais.

O que passa necessariamente por um marketing agressivo, não no sentido restrito de comunicação, mas de uma abordagem que comece por um conhecimento rigoroso dos mercados e acabe numa gestão eficaz dos canais de distribuição e de parcerias externas, passando obviamente pelo desenvolvimento de produtos diferenciados, quer do ponto de vista técnico quer de design, e respetiva promoção.

Só assim será possível produzir riqueza que se venha a traduzir em mais lucros, maiores salários, reformas mais justas e melhores serviços públicos. Mais do que uma oportunidade, esta é uma obrigação da nossa classe empresarial – para que tenhamos um país mais rico, mais desenvolvido e mais inclusivo.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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